“Vivemos uma verdadeira guerra, contra o vírus, contra as aglomerações, contra o negacionismo”, alerta a médica Maria Maeno, especialista em Saúde Pública
Médica foi uma das participantes da mesa “Pandemia e os impactos na saúde e na vida dos trabalhadores”, ao lado do sindicalista Loricardo de Oliveira, abrindo o segundo dia de debates virtuais da Reunião da Direção Colegiada do Sinergia CUT, na manhã do último sábado
Escrito por 13 de abril de 2021
Médica foi uma das participantes da mesa “Pandemia e os impactos na saúde e na vida dos trabalhadores”, ao lado do sindicalista Loricardo de Oliveira, abrindo o segundo dia de debates virtuais da Reunião da Direção Colegiada do Sinergia CUT, na manhã do último sábado
Na semana em que o Brasil atingiu o recorde mundial de mais de 351 mil mortes pela covid-19, com média de quase três mil vidas perdidas diariamente, o Sinergia CUT abriu o segundo dia da 3ª Reunião da Direção Colegiada, na manhã do último sábado (10), para debater o tema “Pandemia e impactos na saúde e na vida dos trabalhadores e trabalhadoras”.
Dois convidados participaram da mesa virtual, com mediação de Rafael Magalhães, secretário geral do Sinergia Gasista: Maria Maeno, médica especialista em Saúde Pública e pesquisadora na área de Saúde do Trabalhador, e Loricardo de Oliveira, secretário geral da CNM (Confederação Nacional dos Metalúrgicos) e representante da CUT na CTPP (Comissão Tripartite Paritária Permanente).
“Estamos vivendo o momento mais grave da pandemia, com o Brasil em colapso, já registrando março e abril como os piores meses, com milhares de mortes e de contágios, calamidade que é resultado principalmente do negacionismo do governo federal”, destacou Maria Maeno. “Vivemos uma verdadeira guerra, contra o vírus, contra as aglomerações, contra o negacionismo”, alertou.
“Política intencional de boicote ao SUS”
Para ela, essa realidade de calamidade pública e de sistema de saúde colapsado começou a ser desenhada desde o início da pandemia, só reconhecida em março do ano passado. “Desde o começo, convivemos com os obstáculos impostos pelo governo federal no combate ao contágio do novo coronavírus. A falta de articulação entre os governos federal e estaduais para garantir um plano integrado de saúde e de recursos públicos, nenhuma campanha de prevenção, intensa propagação do tratamento precoce sem nenhuma comprovação científica, nenhum controle sobre as viagens internacionais que espalharam o vírus e o contágio, uma política intencional de boicote ao SUS, que é referência mundial de vacinação em massa”, argumentou a médica.
Maeno também apontou que políticas públicas de saúde poderiam ter amenizado os tratamentos e as mortes por covid-19. “Os médicos de família, junto com profissionais de saúde, que criam vínculos de confiança com pacientes, poderiam repassar informações e orientações importantes. Essa assistência integrada, com tratamento, reabilitação e atenção domiciliar, fortalecendo e investindo no SUS como um todo, certamente evitariam o colapso atual”, afirmou.
“Sozinha, vacina não é milagrosa”
Sobre a chegada das vacinas, considerada uma esperança, a médica afirmou que é um avanço, mas, sozinha, não é milagrosa. “Não há imunidade coletiva diante das novas variantes e dos poucos vacinados, já que as aglomerações continuam. O Brasil é preparado para a vacinação em massa, o SUS tem capacidade de vacinar até dois milhões de pessoas por dia, mas não temos vacina. Promover a testagem em massa, estimular o isolamento social, restringir o contágio através de lockdown e investir em políticas públicas de prevenção e de saúde integrada são iniciativas para ontem. São as únicas formas que ainda temos para superar o colapso atual, preservar vidas e combater a pandemia”, disse Maeno.

Preocupada com as condições de trabalho de várias categorias essenciais que continuam atuando na linha de frente – como eletricitários, gasistas, jornalistas, professores, condutores, entre outros profissionais – a médica foi cirúrgica. “É fato que o vírus circula nos locais de trabalho, muitos sem ventilação ou garantia de isolamento, no transporte coletivo diário e em situações de risco de atividades essenciais, vale tudo para favorecer o capital”, pontuou.
“É preciso garantir direitos já”
E continuou: “Por isso, é preciso garantir direitos já, com recursos para os infectados e os doentes, como auxílio doença, Fundo de Garantia, auxílio acidente para amenizar sequelas, pensão por morte. Como prevenção, além do lockdown para assegurar o isolamento social, é urgente o auxílio emergencial de R$ 600, melhores condições para quem precisa do transporte coletivo, manutenção de emprego e renda para todos, atenção especial aos que têm comorbidades, além de vacina para todos. Enfim, é urgente garantir a igualdade de condições para todos, principalmente para os que mais precisam e que estão sendo mais afetados pelo desemprego e pela fome”.
Como médica comprometida com a saúde pública, estudiosa da relação entre a covid-19 e as diversas atividades profissionais exercidas presencialmente na pandemia, Maria Maeno participa de pesquisa e estudo do projeto “Covid-19 como uma doença relacionada ao trabalho”, promovida pela Associação de Saúde Ambiental e Sustentabilidade (ASAS). O projeto inclui a realização de uma pesquisa com trabalhadores formais e informais de vários segmentos, que vai analisar e dar visibilidade às condições de trabalho enfrentadas na pandemia.
“Bolsonaro rompeu acordo na CTPP, mas teve que recuar”
O dirigente metalúrgico Loricardo de Oliveira, representante da CUT na CTPP (Comissão Tripartite Paritária Permanente) foi o segundo palestrante da manhã de sábado (10) e também abordou as dificuldades enfrentadas durante o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) que, assim que assumiu a presidência, assinou decreto que pretendia acabar com a comissão. “Rompeu um acordo de anos, mas, por reação da CUT e outras centrais, foi obrigado a recriar o fórum que debate principalmente as Normas Regulamentadoras sobre a saúde dos trabalhadores, com a participação das centrais sindicais, empresas e governo”.

Com a chegada da pandemia, Oliveira afirmou que foram inúmeras as divergências nos debates sobre as NRs. “Estamos discutindo em separado, por exemplo, a NR 17, que trata da ergonomia e dos riscos psicossociais dos trabalhadores, e a NR 32, que aborda o trabalho agrícola. Além dos ataques do governo federal, os representantes do patronal também querem tirar direitos, como a não emissão da CAT, mudanças no formato das CIPAs e regramento dos trabalhadores de telemarketing, um dos símbolos de local de trabalho doente”, denunciou.
Sobre a NR 10, que trata da necessidade do trabalho em dupla para eletricitários, diante da possibilidade de socorro recíproco em caso de emergência, o sindicalista afirmou que governo e patronato também querem mudanças. “Estão querendo acabar com a exigência do trabalho em dupla, considerando que só um trabalhador basta, mas o interesse real é o de extinguir o adicional de periculosidade, o que é inadmissível”, afirmou.
Para Oliveira, o momento atual é de muita dificuldade para debates entre trabalhadores, patrões e governo. “Enfrentamos atualmente dificuldade em pautar assuntos de interesse da classe trabalhadora. É o governo de Bolsonaro que está pautando tudo, o que exige de nós, trabalhadores, muita mobilização. O governo tem pressa para desregulamentar tudo. Nós, CUT e sindicatos, vamos continuar com tranquilidade para garantir direitos conquistados e avançar com muita formação e organização sindical”, finalizou.
Por Lílian Parise











