Sergio Nobre defende negociação coletiva e fim da escala 6×1 em evento com Lula
Presidentes da CUT e da República defenderam diálogo social na abertura da II Conferência Nacional do Trabalho. Nobre anunciou que as centrais sindicais lançarão campanha nacional de combate ao feminicídio
Escrito por Luiz R Cabral | Editado por: Rosely Rocha | CUT 4 de março de 2026
O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sergio Nobre, defendeu a retomada do diálogo social e o fortalecimento da negociação coletiva como caminhos para enfrentar os desafios do mundo do trabalho no Brasil. A posição do dirigente foi reforçada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na abertura da etapa nacional da II Conferência Nacional do Trabalho, nessa terça-feira (03), no Anhembi, em São Paulo.
O evento reuniu representantes do governo federal, centrais sindicais e do setor empresarial para discutir propostas que possam orientar políticas públicas voltadas ao emprego, à renda e às relações de trabalho no país.
Logo no início de sua fala, Lula destacou que a conferência representa mais do que um espaço de debate: é um exemplo de como a democracia deve funcionar.
“Uma coisa importante que está acontecendo neste encontro é a fotografia do que é o exercício da democracia no país”, afirmou.
Para o presidente da República, mudanças importantes nas relações de trabalho precisam nascer do diálogo entre trabalhadores, empresários e governo — levando em conta a diversidade do mercado de trabalho brasileiro.
Segundo Lula, o avanço de políticas para o mundo do trabalho depende da capacidade de construir acordos que atendam à maioria da sociedade.
“O resultado final desse debate será muito melhor se for fruto de um acordo entre empresários, trabalhadores e governo”, declarou.
Reconstruir pontes de diálogo
Na mesma linha, o presidente da CUT destacou que retomar o diálogo tripartite é fundamental para reconstruir políticas públicas voltadas ao trabalho.
“Nos últimos anos esse diálogo tem feito muita, mas muita falta ao Brasil”, afirmou Sérgio Nobre.
Ele lembrou que a história recente do país mostra que negociações entre trabalhadores, empresários e governo já foram decisivas para enfrentar crises econômicas e encontrar saídas para o desenvolvimento.
Como exemplo, Nobre citou a Câmara Setorial Automotiva, criada no início dos anos 1990 para enfrentar a crise da indústria automobilística.
“À época muitos diziam que era uma crise de morte, que poderia inviabilizar a produção de automóveis no Brasil. A partir de uma negociação tripartite, a produção saltou de cerca de 600 mil veículos para quase 2 milhões em apenas dois anos”, recordou.
Segundo ele, o processo trouxe ganhos para todos. “O emprego cresceu, os trabalhadores tiveram aumento real de salário, as empresas ampliaram a produção e também seus resultados. Ganhou o Estado com aumento da arrecadação e ganhou a sociedade com geração de emprego de qualidade”, afirmou.
Para o dirigente, experiências como essa mostram que o diálogo social pode produzir soluções equilibradas para problemas complexos.
Veja a fala completa de Sérgio Nobre
Quando o diálogo falha, cresce a judicialização
Sérgio Nobre também chamou atenção para um problema que se intensificou nos últimos anos: a judicialização das relações de trabalho.
Segundo ele, o enfraquecimento dos espaços de negociação fez com que muitos conflitos passassem a ser resolvidos no Judiciário.
O diálogo foi interditado e pontes construídas ao longo de décadas foram implodidas. O saldo disso foi a judicialização dos temas do trabalho
“Hoje, diversos temas importantes para trabalhadores e empresas estão sendo discutidos no Supremo Tribunal Federal (STF), como a regulamentação do trabalho por meio de pessoa jurídica. Esse tema, por sua relevância e pelo impacto na vida das pessoas, deveria ser resolvido entre nós e não pelo Judiciário”, complementou.
Ele lembrou ainda que, apenas em 2025, a Justiça do Trabalho recebeu mais de 2 milhões de novas ações trabalhistas. No Congresso Nacional do Brasil, acrescentou, tramitam mais de 60 projetos de lei sobre definição de pisos salariais para diferentes categorias. Para o dirigente, esses números mostram como temas centrais do mundo do trabalho têm sido deslocados para o Judiciário e para o Legislativo, muitas vezes sem a mediação da negociação coletiva.
Ao abordar o tema, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também alertou que mudanças nas regras trabalhistas precisam ser construídas com diálogo. Segundo ele, aprovar leis sem esse acordo pode ampliar conflitos e aumentar a judicialização das relações de trabalho.
Não adiantaria enviar um projeto de lei para aprovar uma jornada de trabalho de 35 ou 36 horas se ela não fosse cumprida, gerando apenas greves e milhões de processos na Justiça do Trabalho sem resolver o problema
Mais tempo para viver, não apenas para trabalhar
Outro tema que ganhou destaque na conferência foi o debate sobre a organização da jornada de trabalho.
Para Sérgio Nobre, a discussão sobre o fim da escala 6×1 não se resume à divisão do tempo de trabalho, mas toca diretamente na qualidade de vida das pessoas.
“Não se trata apenas de um debate sobre jornada ou escala de trabalho. É um debate sobre a necessidade de as pessoas terem mais tempo com a família e conciliar o trabalho com a vida social”, afirmou.
Lula também ressaltou que mudanças na jornada precisam considerar as diferentes realidades do país.
“Não se pode tratar da mesma forma a jornada de trabalho de um pequeno negócio familiar e a de uma grande empresa”, disse.
Violência contra a mulher também entra no debate
Além das pautas ligadas diretamente ao trabalho, a conferência também abriu espaço para discutir problemas sociais que impactam a vida da classe trabalhadora.
Na parte final de sua fala, Sérgio Nobre anunciou que as centrais sindicais lançarão, no dia 8 de março (domingo), uma campanha nacional de combate ao feminicídio.
O feminicídio não é um tema das mulheres, é um tema de toda a sociedade, em especial dos homens. Temos a obrigação moral de trabalhar para erradicá-lo no Brasil
O presidente Lula também abordou o tema e defendeu mudanças culturais profundas para enfrentar a violência contra as mulheres.
“A violência contra a mulher é um problema histórico que exige um processo de reeducação humana, da creche à universidade”, disse.
Segundo ele, é preciso romper com a cultura que naturaliza a desigualdade entre homens e mulheres.
Homens e mulheres devem ser tratados como iguais. Não existe essa história de o homem ser dono da mulher
A II Conferência Nacional do Trabalho segue com debates e grupos temáticos que devem elaborar propostas para orientar políticas públicas voltadas ao emprego, à renda e às relações de trabalho no Brasil.
Sobre a Conferência
O evento, que segue até quinta-feira (5), reúne representantes do governo federal e dos governos estaduais, empresários, da CUT e das demais centrais sindicais e das confederações patronais para definir diretrizes que devem orientar as políticas públicas de emprego e direitos trabalhistas nos próximos anos.
Serão debatidos temas centrais como qualificação profissional, proteção social, inclusão produtiva, fortalecimento da negociação coletiva e a preparação do país para as transformações tecnológicas, digitais, ecológicas e demográficas que moldam o futuro do mundo do trabalho.
Estruturada no modelo tripartite, com número igual de delegados e direito à voz para governo, trabalhadores e empregadores, a II CNT consolida-se como o principal espaço institucional de diálogo social sobre o mundo do trabalho no país. Esse formato coloca interesses distintos em negociação direta, com o objetivo de construir consensos e formular propostas viáveis para a política nacional de trabalho e renda.
A II Conferência Nacional do Trabalho está sendo realizada no Teatro Celso Furtado, na Avenida Olavo Fontoura, 1209 – Santana – São Paulo (SP), de 3 a 5 de março de 2026.
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