Alerta

Marcha em Brasília leva às ruas a denúncia do feminicídio recorde no país

Com 470 mulheres assassinadas em 2025, maior número da série histórica, mobilização da classe trabalhadora em Brasília, no dia 15, reforça a cobrança por mudanças estruturais e políticas de combate à violência

Escrito por André Accarini | Editado por: Rosely Rocha | CUT 14 de abril de 2026
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Autor da foto: Ahead

O Brasil atingiu, em 2025, o maior número de feminicídios desde a tipificação do crime, em 2015, evidenciando uma tendência de agravamento que atravessa diferentes regiões e perfis sociais. De acordo com informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, ao longo de todo o ano, foram registrados 470 feminicídios.

O número supera os 464 casos contabilizados em 2024, que até então representavam o maior patamar da série histórica. Na prática, isso significa que, em média, aproximadamente quatro mulheres foram assassinadas por dia no país por razões relacionadas ao gênero.

Fim do feminicídio: pauta urgente

A violência contra a mulher, que se apresenta de diversas formas e tem no feminicídio sua face mais cruel, é uma das bandeiras de luta da Marcha da Classe Trabalhadora, nesta quarta-feira, 15 de abril, em Brasília.

Essa violência tem origem em diversos fatores – culturais, financeiros, sociais – mas nenhum deles pode justificar a prática de qualquer tipo de agressão à mulher – física ou psicológica.

As violências como a misoginia, a dependência econômica da mulher, o ciúme, a possessão são, em geral, os pontos de partida para os assassinatos ocorridos. Por isso, é preciso que toda e qualquer campanha contra a violência tenha como alvo o agressor, o homem.

“A marcha é um momento fundamental para mostrarmos ao Brasil que a violência contra a mulher existe, faz vítimas todos os dias e que tem que haver uma mudança estrutural na sociedade. A mobilização vai reforçar – e nós mulheres estaremos todas em Brasília para isso – vai mostrar que é preciso uma mudança de radical paradigmas. O machismo, que ainda permeia as relações sociais, as relações trabalhistas, que ainda insiste em reger boa parte do funcionamento dessa sociedade é algo que tem que ficar enterrado no passado”, dia Amanda Corcino, secretária da Mulher Trabalhadora da CUT Nacional.

Amanda explica que existe um forte movimento, hoje, na sociedade, que aponta para ações mais efetivas contra o feminicídio, que vão desde o endurecimento de sanções e punições até políticas como o Pacto Nacional contra o Feminicídio, uma inciativa do governo federal em conjunto como Congresso Nacional e o Poder Judiciário, que se expandirá à sociedade como um todo. A CUT já está organizando sua atuação dentro do espectro do pacto para se somar às ações. No entanto, ainda é preciso mais, de acordo coma dirigente.

Leia mais: CUT participa do lançamento do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio

“Todas as ações e políticas públicas são absolutamente necessárias e têm sido uma resposta do poder público à violência cotidiana contra as mulheres que jamais poderá ser naturalizada, ou apenas vista como estatística. Cada vida violentada, cada vida perdida de uma mulher é um ato bárbaro que vai no caminho contrário da evolução humana. A marcha vai cobrar e reforçar essas ações, mas acima de tudo, mostrar que estamos lá, estamos vivas e queremos os nossos espaços de direito, seja no trabalho, na política ou em qualquer outra instância”, diz a dirigente.

A participação das mulheres reforçando a luta contra feminicídio “vai reforçar para aqueles que são machistas e misóginos que a sociedade não aceitará mais esse tipo de comportamento”.

Barbárie

O perfil da violência, apontados pelos dados oficiais, mostrou que, em 2025, houve um crescimento significativo dos feminicídios cometidos com arma de fogo, o que aponta para a necessidade de debate sobre acesso e controle desse tipo de armamento.

Em relação à faixa etária, os dados do Atlas da Violência 2025 indicam maior incidência entre mulheres jovens: 11% das vítimas tinham entre 25 e 29 anos, e 10% estavam na faixa de 30 a 34 anos.

Outro aspecto central é o local onde os crimes ocorrem. A residência da vítima permanece como o principal cenário da violência, concentrando 43,1% dos casos. Em seguida, aparecem as vias públicas, com 36,7%. Esses números reforçam que o feminicídio, em grande parte, está associado a relações próximas e contextos domésticos, embora também se manifeste de forma significativa em espaços abertos.

A análise histórica amplia a dimensão do problema. Em 2015, primeiro ano após a tipificação do feminicídio como crime, foram registrados 535 casos. Desde então, o Brasil acumulou 13.448 mulheres assassinadas ao longo de uma década, com crescimento superior a 170% no período. Mesmo com variações anuais, o volume de ocorrências permanece elevado e persistente.

Os dados de 2025 ainda são considerados preliminares e podem sofrer ajustes, devido a atrasos no envio de registros finais por parte de alguns estados. Ainda assim, eles dialogam com levantamentos de outras instituições, como a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher e o Mapa Nacional da Violência de Gênero, desenvolvido pelo Senado Federal, pelo Conselho Nacional de Justiça e pela ONU Mulheres, consolidando um cenário consistente de alerta.

Diante desse quadro, os números não apenas dimensionam a gravidade da violência contra as mulheres no país, mas também evidenciam a necessidade de respostas articuladas entre poder público, sistema de justiça e sociedade.

Ações e Posicionamentos da CUT no Combate ao Feminicídio:

  • Mobilização e Ativismo: Além da marcha, a CUT integra campanhas como – Mês Internacional da Mulher, destacando o 8 e Março e os “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher”, que ocorrem de 20 de novembro a 10 de dezembro, visando conscientização e denúncia.
  • Envolvimento dos Homens: A central enfatiza a necessidade de os homens participarem ativamente na luta contra o feminicídio, reconhecendo-os como principais autores das agressões.
  • Combate Estrutural: Defesa de políticas públicas que garantam a autonomia econômica das mulheres, combate ao assédio, e melhoria na rede de proteção e acolhimento.
  • Pacto Nacional: Apoio ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, que visa o cumprimento de medidas protetivas e capacitação com perspectiva de gênero.
  • Educação e Cultura: Luta por educação não sexista e ações de prevenção constante em todos os espaços de trabalho

Sobre a Marcha da Classe Trabalhadora

A marcha reunirá dirigentes sindicais de várias categorias, além de trabalhadoras e trabalhadores, de todo o país, em torno de pautas como o fim da escala 6×1, redução e jornada sem salários, fortalecimento das negociações coletivas e direito à negociação para servidores públicos, regulamentação do trabalho por aplicativos e combate à pejotização.

A programação do dia 15 de abril terá início às 8h, com concentração e realização de uma plenária nacional voltada à atualização da Pauta da Classe Trabalhadora para o período de 2026 a 2030. O documento foi construído de forma unificada pelas centrais sindicais durante a Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), realizada em abril de 2022.

Em seguida, os trabalhadores e trabalhadoras irão em marcha, a partir das 10h30, em direção ao Congresso Nacional, em Brasília.

No período da tarde, as centrais sindicais devem formalizar a entrega de suas reivindicações ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Às14h a pauta e a Agenda Sindical serão entregues ao presidente da Câmara, Hugo Motta, na sala da Presidência da Câmara.

 

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