Homofobia: caso do ator João Victor expõe a violência e a intolerância nas redes
Hostilização contra ator durante live nos arredores do Rock in Rio é investigada pela Decradi e reacende debate sobre LGBTfobia, conteúdo digital e direito à diferença
Escrito por : André Accarini | CUT Brasil 9 de setembro de 2026
Nas redes sociais e em outros meios de comunicação, ganhou ampla repercussão, nos últimos dias, o caso envolvendo o ator João Victor Gonçalves, abordado e hostilizado por um grupo de jovens durante uma live. No vídeo, o influenciador GH Rell RJ faz comentários sobre a roupa e a aparência do artista, quando se dirigia ao ercinto do Rock in Rio, no dia 4 de setembro.
Em um dos momentos, um saco preto é lançado na direção de João Victor, que tenta se afastar do grupo. Mais tarde, o ator publicou um vídeo em que relatou ter se sentido acuado e classificou o episódio como homofobia.
A situação trouxe novamente uma questão que exige atenção: ninguém deveria enfrentar constrangimento ou medo por causa da forma como se veste, se expressa, ama, acredita ou escolhe viver. Quando a exposição de uma pessoa vira motivo de riso e compartilhamento, o que está em jogo deixa de ser entretenimento e passa a ser o respeito à dignidade humana.
Após a repercussão das imagens, GH Rell RJ publicou um vídeo em que pediu desculpas e afirmou que fazia “entretenimento” durante a live. Ele disse que a situação teria sido retirada de contexto e negou ter cometido homofobia.
Em outro momento, o influenciador acusou João Victor de racismo. Segundo a defesa do streamer, o ator teria associado o grupo ao medo de ser roubado. Já a defesa de João Victor contestou a acusação e afirmou que o temor relatado por ele estava ligado à abordagem hostil e ao fato de estar cercado por várias pessoas.
Banimento e investigação
Após a repercussão do caso, o perfil de GH Rell RJ ficou indisponível na plataforma Kick. A página passou a exibir uma mensagem de erro para quem tentava acessá-la. Em outras redes sociais, o influenciador chegou a fechar perfis, mas continuou publicando vídeos para se explicar e responder às críticas.
Em um deles, GH aparece chorando, pede desculpas e afirma que não consegue dormir e que passou a receber ataques. Em outro, acusa João Victor de racismo depois que o ator relatou medo durante a abordagem. A defesa de João Victor rebateu a acusação e afirmou que o temor estava relacionado à situação de hostilidade e ao número de pessoas que o cercavam.
O influenciador também se declarou apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro. A manifestação levou o caso para o ambiente já marcado pela polarização política nas redes. A investigação aberta pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, a Decradi, no entanto, tem como foco os fatos registrados na abordagem ao ator. GH foi identificado e intimado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, e o inquérito segue sob sigilo.
Justificando o injustificável
A repercussão não levou GH Rell RJ a rever a abordagem. Ao responder às críticas, o streamer tentou enquadrar o episódio como parte do conteúdo que costuma fazer nas ruas. “Eu estava numa live e fico fazendo um monte de entretenimento no meio da rua”, disse. Depois, resumiu tudo como “doideira com maluquice”.
Em outra transmissão, foi além. GH afirmou que seria “natural” rir do visual de João Victor porque, segundo ele, não conhecia aquele estilo de roupa. Disse ter ficado “abismado” com o look do ator e reforçou que não mudaria sua opinião sobre as peças usadas.
As falas ajudam a explicar o debate provocado pelo caso. GH apresenta o deboche como uma reação comum diante de alguém que não se veste como ele considera habitual. João Victor, por sua vez, relatou medo e classificou o episódio como homofobia. A diferença não pode servir de pretexto para exposição, constrangimento ou violência.
As justificativas apresentadas pelo influenciador também remetem a uma forma conhecida de atuação política. Para Walmir Siqueira, secretário de Políticas LGBTQIA+ da CUT, setores da extrema direita recorrem historicamente à humilhação e à desqualificação de quem não se encaixa nos padrões que defendem.
“A extrema direita sempre tentou tratar quem é diferente como algo menor, estranho ou perigoso. É um método que passa pela humilhação, pela negação de direitos e pela segregação de tudo o que foge dos padrões convencionais que querem impor à sociedade”, diz o dirigente.
Walmir avalia que esses padrões não são neutros. Eles costumam valorizar referências eurocêntricas de aparência, comportamento, família e religião, enquanto transformam corpos, culturas, identidades e modos de viver que escapam a esse modelo em motivo de suspeita ou deboche.
“Ninguém da extrema direita, de qualquer espectro político ou campo religioso tem o direito de decidir quem pode existir, como uma pessoa deve se vestir, amar, falar ou ocupar os espaços. Opinião não é autorização para violentar. Quando o diferente vira alvo, o objetivo não é debater, é impor silêncio e medo” – Walmir Siqueira
O incômodo com a não heteronormatividade
A reação à roupa e à aparência de João Victor expõe o incômodo que ainda existe com homens que não correspondem a padrões rígidos de masculinidade. Corpos, gestos e estéticas fora desse modelo seguem sendo tratados como estranhos e, muitas vezes, como motivo de deboche.
O sociólogo Pierre Bourdieu chamou de violência simbólica a forma de poder que se naturaliza em palavras, risadas e constrangimentos. No caso, ela aparece nos comentários e na exposição do ator, mas também se soma ao gesto físico registrado no vídeo, quando um saco é lançado em sua direção. O resultado, segundo o relato de João Victor, foi medo.
A masculinidade hegemônica, conceito desenvolvido pelo sociólogo R. W. Connell, associa a ideia de homem à força, ao controle e à rejeição de tudo o que é visto como feminino ou fora da heterossexualidade. Quem não corresponde a esse modelo pode ser tratado como ameaça ou motivo de riso. Quando o estranhamento é transformado em deboche diante de uma câmera e de um grupo, pode produzir violência psicológica e medo.
Pessoas LGBTQIA+ não são alegorias
O vídeo do caso de João Victor não mostra apenas uma abordagem na rua. Ele expõe também uma dinâmica comum nas redes: a busca por uma reação que possa ser transformada em conteúdo. Quem filma ganha audiência. Quem é filmado, muitas vezes, sequer escolheu participar.
No episódio, João Victor aparece cercado enquanto sua roupa e aparência são alvo de comentários. É nesse ponto que a discussão sobre humor se torna necessária. Uma piada pressupõe troca. Quando há insistência, exposição e medo, não há espaço para tratar a reação da pessoa abordada como parte de uma brincadeira.
Para Walmir, o caso chama atenção para a forma como pessoas LGBTQIA+ ainda são usadas como alvo de deboche em conteúdos digitais.
“Não há entretenimento quando uma pessoa é colocada em situação de medo e humilhação. A população LGBTQIA+ não pode seguir como alvo de piada por causa da roupa, do corpo ou do jeito de existir. Essas condutas perpetuam a violência que causa mortes em nossa comunidade todos os dias”, diz.
A responsabilidade, segundo o dirigente, vai além de quem produz o conteúdo. Ela alcança plataformas que distribuem esses vídeos, pessoas que compartilham e a formação de quem cria conteúdo.
“A violência não começa nem termina em quem segura a câmera. Ela é estimulada quando uma agressão recebe risadas, compartilhamentos e visualizações. Por isso, é preciso cobrar proteção das plataformas e ampliar o diálogo sobre direitos humanos”, pontua Walmir.
Quando a opressão é reproduzida
O caso também permite olhar para uma contradição presente na sociedade brasileira: discursos de intolerância alcançam pessoas que enfrentam, no cotidiano, desigualdade, racismo, falta de oportunidades e preconceito.
Em Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire analisa como relações de opressão podem ser reproduzidas quando a educação não cria caminhos para a consciência crítica e a autonomia. A reflexão mostra como sistemas de desigualdade podem oferecer a quem está em situação de vulnerabilidade uma ilusão de poder sobre alguém ainda mais vulnerabilizado.
Setores da extrema direita exploram essa lógica ao valorizar modelos de masculinidade agressiva, desprezar direitos humanos e transformar a diversidade em ameaça. Esses discursos podem oferecer a jovens periféricos uma promessa de pertencimento e reconhecimento.
No entanto, esse reconhecimento é limitado e interessado. A mesma estrutura que celebra alguém quando ele ataca o “diferente” frequentemente despreza sua origem, seu território e seus direitos quando ele deixa de ser útil à narrativa.
“Precisamos reformular essa realidade e ampliar a consciência de classe. Isso se faz com diálogo, formação política e condições para que a solidariedade prevaleça sobre a violência. Esse é o papel da CUT nas questões LGBTQIA+, no enfrentamento ao racismo, ao machismo, à xenofobia e a todas as formas de discriminação”, afirma Walmir Siqueira
Para o dirigente, políticas públicas de inclusão também são fundamentais para enfrentar essa lógica.
“Governos de direita não têm interesse em fortalecer políticas de inclusão e diversidade. O exemplo mais recente foram os quatro anos do governo Bolsonaro, quando políticas públicas que contemplavam esses grupos foram desestruturadas ou abandonadas” – Walmir Siqueira
Lei: a equiparação
Desde 2019, atos de homofobia e transfobia são enquadrados como crimes de racismo no Brasil. A decisão foi tomada pelo Supremo Tribunal Federal ao reconhecer a omissão do Congresso Nacional em aprovar uma lei específica sobre o tema.
Na prática, enquanto não houver legislação própria, condutas motivadas por preconceito contra orientação sexual ou identidade de gênero podem ser analisadas à luz da Lei do Racismo, a Lei nº 7.716, de 1989. O STF entendeu que a proteção constitucional contra o racismo também alcança a discriminação contra a população LGBTQIA+.
A equiparação não significa que toda discussão, opinião ou desentendimento tenha enquadramento criminal automático. Cada caso precisa ser apurado a partir dos fatos, das imagens, dos depoimentos e do contexto. No episódio envolvendo João Victor, essa análise cabe à Decradi, responsável pelo inquérito.










