60+: Mais Direitos

Envelhecer com direitos: trabalho, renda, saúde e autonomia depois dos 60

Com 36,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, em 4 anos, governo ampliou políticas de saúde, cuidado, renda e proteção social diante do rápido envelhecimento da população

Escrito por Redação CUT 28 de setembro de 2026
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Autor da foto: SECOM CUT/ IA

O Brasil passa por uma rápida mudança demográfica. O número de pessoas com 60 anos ou mais superou cerca de 22 milhões, em 2012, para 34,1 milhões em 2024, crescimento de 53,3%, segundo o IBGE. Em 2026, esse contingente chegou a 36,6 milhões, equivalente a 17,1% da população. A projeção aponta que poderá alcançar 61,5 milhões nas próximas duas décadas.

Essa transformação muda o perfil da sociedade e também do mundo do trabalho. A questão é como garantir renda, trabalho digno, saúde, cuidado e autonomia para milhões de pessoas que viverão cada vez mais.

Trabalhar depois dos 60

Para alguns, continuar trabalhando é uma escolha. Para outros, é uma forma de complementar a renda ou uma necessidade para manter o orçamento familiar. Em 2024, 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas: 34,2% dos homens e 16,7% das mulheres.

A participação diminui com a idade. Entre 60 e 69 anos, aproximadamente 48% dos homens e 26,2% das mulheres estavam ocupados. Entre as pessoas com 70 anos ou mais, os índices caíam para 15,7% e 5,8%, respectivamente.

Os números mostram que chegar à velhice não significa necessariamente deixar o mercado de trabalho. Para uma parcela, porém, permanecer na atividade está relacionado à necessidade de renda.

A forma de inserção também chama atenção. Em 2024, 43,3% dos trabalhadores com 60 anos ou mais atuavam por conta própria. A atividade autônoma pode representar autonomia, mas também significa menor proteção diante de doença, acidente ou perda de renda.

O mercado de trabalho precisa, portanto, incorporar essa realidade, com qualificação, adaptação de funções, jornadas adequadas, saúde ocupacional e combate ao etarismo.

A desigualdade também envelhece

Chegar à velhice não significa estar nas mesmas condições. A renda média mensal das pessoas com 60 anos ou mais era de R$ 3.108 em 2023. Entre os homens, chegava a R$ 4.071; entre as mulheres, R$ 2.718. Entre pessoas brancas, a média era de R$ 4.687, contra R$ 2.403 entre pretos e pardos.

Essas diferenças mostram que as condições de trabalho e renda acumuladas ao longo da vida permanecem presentes. Salários menores, informalidade e interrupções na trajetória profissional ajudam a explicar as disparidades.

Por isso, discutir a realidade de quem chega aos 60 anos significa também tratar de emprego, salário, direitos trabalhistas, gênero, raça e oportunidades.

Renda e autonomia

Os recursos disponíveis na velhice podem vir do trabalho, de benefícios previdenciários e assistenciais, patrimônio e apoio familiar. Em setembro de 2024, 67,4% dos benefícios previdenciários e assistenciais pagos correspondiam a um salário mínimo.

Para famílias com orçamento limitado, esse dinheiro precisa cobrir alimentação, moradia, transporte, medicamentos e, muitas vezes, despesas de outros familiares. A autonomia depende, portanto, não apenas da existência de uma renda, mas de sua capacidade de garantir condições dignas de vida.

Viver mais exige uma nova atenção à saúde

Viver mais também exige mudanças na forma como o país organiza a saúde pública. A maior longevidade aumenta a demanda por acompanhamento de doenças crônicas, medicamentos, consultas e cuidados continuados.

O Farmácia Popular oferece gratuitamente medicamentos e insumos para diversas doenças e fraldas geriátricas e está presente em mais de 4,9 mil municípios, segundo o Ministério da Saúde. Para quem depende diariamente de medicamentos, a gratuidade representa acesso à saúde e preservação de renda para outras necessidades.

Quem cuida de quem envelhece?

O aumento da longevidade também transforma a organização das famílias. Pessoas mais velhas podem precisar de ajuda com medicamentos, alimentação, tarefas domésticas, locomoção ou consultas. Sem uma rede pública suficiente, parte desse trabalho acaba dentro das famílias, frequentemente sob responsabilidade das mulheres.

Para enfrentar esse problema, o atual governo já colocou em prática novas políticas de cuidado. A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069/2024, reconhece o direito de cuidar, ser cuidado e exercer o autocuidado e estabelece a corresponsabilidade entre Estado, famílias, sociedade e setor privado.

Outra iniciativa é o PADI-Brasil, lançado em 2026 para levar atendimento multiprofissional à casa de pessoas que precisam de acompanhamento. Segundo os dados reunidos na pesquisa, o programa tem orçamento previsto de R$ 163,2 milhões em 2026 e R$ 329,3 milhões em 2027.

Essas políticas também enfrentam um problema que ultrapassa a saúde: a sobrecarga das famílias, especialmente das mulheres que muitas vezes precisam reduzir ou abandonar o trabalho para cuidar de parentes. Ampliar a rede pública de cuidados significa dividir essa responsabilidade e dar mais autonomia às famílias e às pessoas atendidas.

O que já foi feito e o que Lula propõe para um próximo mandato

O programa de governo de Lula prevê ampliar políticas voltadas à população com 60 anos ou mais a partir de iniciativas já instituídas ou em execução. Entre as propostas estão a expansão do PADI-Brasil, o fortalecimento da Política Nacional de Cuidados, a ampliação do Farmácia Popular, mais Centros-Dia e vagas em Instituições de Longa Permanência para Idosos e espaços públicos de convivência, lazer e atividade física.

Também estão previstas medidas relacionadas à renda, ao atendimento do INSS, ao combate a fraudes e à criação de oportunidades de qualificação e trabalho para pessoas com 60 anos ou mais.

A proposta reúne renda, saúde, cuidado, trabalho e participação social como dimensões das políticas para essa parcela da população.

As lacunas do programa de Flávio Bolsonaro

O programa de governo de Flávio Bolsonaro apresenta propostas para a população idosa, mas deixa questões centrais sem detalhamento diante da dimensão da mudança demográfica brasileira. Em um país com 36,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, novas iniciativas exigem respostas para perguntas básicas: quanto vão custar, quais serão as metas, quem será responsável pela execução e como chegarão aos municípios de todo o país?

Na Previdência, Flávio afirma defender o ajuste fiscal sem alterar aposentadorias nem a política de valorização do salário mínimo. O programa não esclarece como essa estratégia seria conciliada com a ampliação de políticas para uma população que demandará mais saúde, cuidado e proteção social. Também faltam detalhes sobre a articulação entre Previdência, saúde, cuidado, trabalho, renda, moradia e assistência.

A principal lacuna está na distância entre anunciar medidas e demonstrar como serão financiadas, implantadas e mantidas em escala nacional. A transição demográfica não é uma questão exclusivamente previdenciária: exige planejamento de longo prazo e políticas integradas.

Envelhecer também é uma questão de direitos

O Brasil terá cada vez mais pessoas com 60, 70, 80 anos ou mais, e essa transformação exigirá respostas permanentes do Estado e do mercado de trabalho. Os dois programas apresentam caminhos distintos: o de Lula parte de políticas já instituídas ou em execução e propõe ampliar ações de renda, saúde, cuidado, trabalho e participação social; o de Flávio Bolsonaro apresenta novas iniciativas, mas deixa menos detalhados os mecanismos de financiamento, execução, metas e alcance nacional.

Para quem chega à velhice, a questão é concreta: ter renda suficiente, acesso à saúde e aos medicamentos, uma rede de cuidados quando necessária, condições dignas de trabalho e autonomia para viver essa etapa da vida com direitos.

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