Dieese: Mercado de trabalho tem avanços, com aumento do assalariamento e formalização, mas há desafios persistentes
O boletim analisa mudanças a partir da evolução do assalariamento, da formalização, da renda e dos tipos de vínculos entre os segundos trimestres de 2022 e de 2026
Escrito por Dieese 18 de setembro de 2026
Há hoje uma opinião corrente de que empregos com carteira assinada enfrentam uma onda de desprestígio, especialmente entre os jovens, na comparação com o chamado empreendedorismo – o trabalho por conta própria ou como empregador. Os dados mais recentes sobre o mercado de trabalho, porém, mostram outra realidade. Nos últimos quatro anos, o número de assalariados cresceu em ritmo mais intenso do que outras formas de inserção ocupacional. Além disso, o assalariamento formal – emprego com carteira de trabalho assinada ou como estatutário – cresceu ainda mais fortemente. Entre os jovens, o número de assalariados formais também aumentou mais do que o dos demais ocupados.
O período também foi marcado por mudanças no ritmo da economia. Após o crescimento observado após a pandemia, o país registrou perda de dinamismo, processo que se tornou mais evidente entre o segundo e o quarto trimestre de 2025. No segundo trimestre de 2026, houve crescimento de 0,5% na comparação com os três meses anteriores. Contudo, a expansão acumulada em quatro trimestres tem desacelerado, de 3,6%, no início de 2025, para 1,9%, no segundo trimestre de 2026. A perda de fôlego se concentrou nos componentes mais sensíveis aos juros e ao crédito.
O ciclo de elevação da taxa Selic encareceu o crédito, afetou as decisões de investimento das empresas e moderou o consumo das famílias. Por outro lado, a política de valorização do salário mínimo, os ganhos obtidos nas negociações coletivas e as políticas de transferência de renda contribuíram para preservar a renda e o consumo.
Apesar da desaceleração do crescimento econômico, o mercado de trabalho permanece resiliente. Entre os segundos trimestres de 2022 e de 2026, o número total de ocupados cresceu 6,9%, enquanto o assalariamento formal (empregos com carteira), no setor privado e no público, avançou 10,4%. Em números absolutos, o setor privado com carteira criou aproximadamente 4,4 milhões de postos, enquanto o contingente de trabalhadores por conta própria teve aumento de 852 mil vagas. Chama atenção ainda o crescimento do assalariamento sem carteira no setor público, que, no segundo trimestre de 2026, contava com 818 mil trabalhadores a mais do que no segundo trimestre de 2022.
O assalariamento formal também se expandiu e alcançou diferentes segmentos da população. Em números absolutos, a ampliação dos empregos formais foi liderada por educação, saúde e serviços sociais, com cerca de 1,8 milhão de novos vínculos, todos segmentos marcados por elevada participação feminina e estreitamente relacionados às atividades de cuidado. Cerca de 2,4 milhões de postos, ou 51%, referentes ao aumento líquido dos vínculos formais no período, foram ocupados por mulheres. Entre a população negra, foram 3,4 milhões de novos vínculos, o equivalente a quase 72% das novas vagas de assalariados formais estimadas no período.
A expansão da formalização é relevante, pois amplia o acesso à previdência, às férias, ao décimo terceiro salário e a outros direitos e formas de proteção. Ao mesmo tempo, porém, a elevada informalidade persiste. No segundo trimestre de 2026, os empregados privados sem carteira ainda somavam 13,6 milhões de pessoas, enquanto as trabalhadoras domésticas sem carteira eram 4,1 milhões. Também chama atenção o crescimento do emprego público sem carteira: eram 3,5 milhões de trabalhadores no segundo trimestre de 2026, 30,4% a mais que quatro anos antes. O dado indica a formação de um bolsão de desproteção no interior do setor público.
Este Boletim analisa essas mudanças a partir da evolução do assalariamento, da formalização, da renda e dos tipos de vínculos entre os segundos trimestres de 2022 e de 2026.










