Dieese lança jornada de debates nacionais pela redução da jornada e o fim da 6×1
Lançada em São Paulo, iniciativa do Dieese com participação da CUT e centrais sindicais promoverá debates, mobilizações e pressão no Congresso pela aprovação da PEC que reduz jornada sem corte salarial
Escrito por : André Accarini | CUT Brasil 7 de maio de 2026
Com o objetivo de fortalecer a mobilização pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial e pelo fim da escala 6×1, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com participação da CUT e demais centrais sindicais, lançou nesta quinta-feira (7), em São Paulo, a Jornada Nacional de Debates “Disputar a Renda, Reduzir a Jornada – o trabalho no centro do desenvolvimento”.
O evento de lançamento reuniu sindicalistas de várias centrais e sindicatos na sede do Dieese e contou com a apresentação de um estudo detalhado sobre o tema que traz informações e dados sobre o mercado de trabalho brasileiro, sob a ótica da jornada de trabalho e seus impactos aos trabalhadores e trabalhadoras.
Jornada de debates: a proposta é construir uma ampla campanha de mobilização social e sindical em defesa da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e estabelece o fim da escala 6×1. As atividades acontecerão em estados onde o Dieese possui escritórios regionais e combinarão debates, formação política, produção de conteúdo, articulação sindical e mobilizações populares.
Segundo a coordenadora-técnica do Dieese, Adriana Marcolino, a Jornada Nacional foi organizada para fornecer instrumentos políticos, técnicos e de comunicação ao movimento sindical em um momento considerado decisivo para a tramitação da proposta no Congresso Nacional. A data prevista para a votação final no plenário do Congresso Nacional sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho é o dia 27 de maio de 2026.
“A primeira preocupação da Jornada Nacional é colaborar com instrumentos, argumentos e dados para que o movimento sindical possa fazer essa luta”, afirmou Adriana durante o lançamento.
Ela explicou que a discussão sobre redução da jornada não pode ser tratada apenas como um debate sobre tempo de trabalho, mas como uma disputa direta sobre a riqueza produzida pela classe trabalhadora e apropriada pelo setor financeiro e pelos grandes grupos econômicos.
“A desigualdade de renda também está relacionada à jornada e à forma como os empregadores superexploram os trabalhadores com jornadas exaustivas”, disse.
Material de trabalho
Para subsidiar os debates e municiar o movimento sindical com argumentos sobre o tema, o Dieese preparou um estudo que traz dados, informações e conclusões sobre o mercado de trabalho. Adriana destacou, ao apresentar o estudo, que o cenário atual é marcado por aumento da intensidade do trabalho, ampliação da precarização e deterioração das condições de vida da população trabalhadora.
Ela explicou que o avanço das tecnologias e o crescimento da produtividade não foram convertidos em melhoria da qualidade de vida da classe trabalhadora. Pelo contrário, houve intensificação do ritmo de trabalho, maior controle sobre o tempo dos trabalhadores e expansão de modelos de contratação precários.
Ainda de acordo com Adriana, todos os subsídios servirão para fortalecer a atuação sindical nas redes sociais, nos locais de trabalho, nas categorias e junto à população. O objetivo é ampliar o alcance do debate e consolidar pressão social sobre os parlamentares.
Adriana também alertou para o curto prazo de tramitação da proposta no Congresso Nacional e ressaltou que as próximas semanas serão decisivas para garantir a aprovação da PEC.
“Temos um tempo muito curto para conseguir essa conquista”, afirmou.
Segundo ela, será necessária uma verdadeira força-tarefa nacional envolvendo sindicatos, movimentos sociais, dirigentes e trabalhadores para garantir pressão permanente sobre deputados e senadores.
Prazo curto
Vice-presidenta nacional da CUT e presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Juvandia Moreira afirmou que as próximas semanas serão decisivas para garantir a aprovação da proposta de redução da jornada de trabalho sem redução salarial e do fim da escala 6×1 e destacou que o movimento sindical terá pouco tempo para ampliar a pressão sobre o Congresso Nacional.
Ela alertou que o calendário já prevê votação do relatório no dia 26 de maio e apreciação da matéria no dia 27, o que exige mobilização intensa das centrais sindicais, sindicatos e movimentos sociais em todo o país. “É uma jornada rápida, curta e fundamental”, afirmou.
Juvandia ressaltou que a pauta avançou por conta da mobilização construída pelo movimento sindical nos últimos anos, incluindo o plebiscito popular realizado em 2025, que reuniu cerca de 2 milhões de assinaturas em defesa da redução da jornada e da taxação dos super-ricos e o papel do governo federal no avanço da pauta.
“A gente só tem essa pauta colocada nesse cenário nacional porque estamos no governo do presidente Lula”, declarou, reforçando que o governo apoiou a proposta e encaminhou o Projeto de Lei 1838/20267, em regime de urgência, permitindo que o debate avançasse no Congresso. Foi após esse inciativa que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, decidiu dar andamento às PEC´s sobre o tema.
Por isso, para Juvandia, a reta final da tramitação exige presença permanente das entidades sindicais nas ruas, nas redes sociais e junto aos parlamentares, ela afirmou.
“É hora de mobilizar”, afirmou, defendendo ações conjuntas das centrais sindicais nos estados, atos públicos e pressão direta sobre deputados e senadores.
Apoio popular
Juvandia lembra que a pauta já conquistou apoio majoritário da população. Ela citou pesquisas que apontam cerca de 70% de apoio popular ao fim da escala 6×1 e afirmou que parlamentares já sentem o impacto político da discussão.
“Os deputados estão com medo também. Quem votar contra pode ter impacto grande na eleição”, declarou.
A dirigente rebateu ainda os argumentos do setor empresarial de que a redução da jornada provocaria desemprego ou fechamento de empresas. “É terrorismo”, afirmou. “Falaram a mesma coisa quando foi reduzido de 48 para 44 horas.”
Qualidade de vida
Em sua fala, além de ressaltar o impacto para as mulheres, a dirigente explicou reduzir a jornada significa ampliar tempo para descanso, convivência familiar, estudo, saúde e qualidade de vida, além de melhorar a produtividade e reduzir o absenteísmo, ou seja, ausências, atrasos ou saídas antecipadas de funcionários no trabalho.
Por que a redução é desenvolvimento
Durante o lançamento da Jornada Nacional, o Dieese apresentou estudo técnico que fundamenta a defesa da redução da jornada de trabalho como instrumento de desenvolvimento econômico e social.
Os dados apresentados mostram que o Brasil produz riqueza suficiente para reduzir a jornada sem reduzir salários.
Segundo o estudo, o país possui atualmente 102,9 milhões de pessoas ocupadas e um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 10,9 trilhões. Apesar disso, a distribuição da renda produzida continua extremamente desigual.
O Dieese destacou que parte significativa dessa riqueza é apropriada pelo sistema financeiro ou remetida ao exterior.
Somente em 2025, o Brasil enviou US$ 44 bilhões em lucros e dividendos para fora do país.
Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias brasileiras atingiu o recorde de 80,4%, demonstrando deterioração das condições de vida da população trabalhadora.
Durante a apresentação, Adriana Marcolino afirmou que o debate sobre redução da jornada está diretamente relacionado à disputa pela renda produzida no país.
Segundo ela, os ganhos de produtividade registrados nas últimas décadas não foram convertidos em melhoria proporcional das condições de vida da classe trabalhadora.
“O aumento da produtividade ficou concentrado no capital”, afirmou.
O estudo apresentado pelo Dieese também desmonta a tese patronal de que jornadas mais longas significam salários maiores.
Os dados revelam ainda que trabalhadores submetidos a jornadas entre 41 e 44 horas semanais recebem, em média, menos do que aqueles que trabalham exatamente 40 horas.
Os setores com maior incidência de jornadas superiores a 40 horas — como agropecuária, comércio e construção civil — também não são os setores de maiores salários.
Outro eixo importante da apresentação foi a relação entre jornada de trabalho e saúde. Os dados também mostram crescimento de 27% nos transtornos mentais relacionados ao trabalho, com incidência duas vezes maior entre mulheres.
Ainda segundo o levantamento, as mulheres acumulam, em média, 58 horas semanais entre trabalho remunerado e trabalho doméstico. Entre os homens, a soma chega a 50,6 horas.
O Dieese destacou ainda os impactos provocados pelo tempo excessivo de deslocamento.
Atualmente, cerca de 1,3 milhão de pessoas gastam mais de duas horas diárias apenas no trajeto entre casa e trabalho.
Durante a apresentação, Adriana ressaltou que produtividade não pode ser confundida com exploração intensiva da força de trabalho.
Audiências públicas e calendário de mobilização
O calendário de debates e mobilizações nos estados para discutir a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 terá como datas:
- 07 de maio: Paraíba (Seminário), São Paulo e Distrito Federal (Mobilização).
- 12 de maio: Santa Catarina.
- 13 de maio: Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul e Paraná.
- 14 de maio: São Paulo (Seminário no Palácio do Trabalhador – Força Sindical, às 09h30), Espírito Santo, Rio de Janeiro e Sergipe.
- 15 de maio: Rio Grande do Sul (Seminário às 10h) e Pará.
- 16 de maio: Maranhão (Seminário).
- 19 de maio: Pernambuco e Rio Grande do Sul.
- 20 de maio: Rio Grande do Norte.
- 21 de maio: Belo Horizonte (Seminário às 10h).
- 22 de maio: Manaus (Seminário).
- 28 de maio: Paraíba.
Essas atividades fazem parte da Jornada Nacional de Debates e de seminários promovidos pelo DIEESE em conjunto com as centrais sindicais.
Durante a apresentação do cronograma da campanha, Adriana Marcolino destacou que o Congresso Nacional terá uma agenda intensa de debates e audiências públicas ao longo das próximas semanas.
Segundo ela, as audiências públicas da comissão especial que analisa a PEC 221/2019 (de autoria do deputado Reginaldo Lopes do PT-MG) e a PEC 8/2025 (de autoria da deputada Erika Hilton do Psol de SP) serão realizadas todas as terças e quartas-feiras até a votação final da proposta.
A orientação das centrais sindicais é manter presença permanente em Brasília durante todo o período de tramitação. O calendário apresentado durante o lançamento prevê:
- 12 de maio — debate sobre impactos econômicos, produtividade e financiamento;
- 13 de maio (manhã) — apresentação de experiências concretas de redução da jornada;
- 13 de maio (tarde) — diálogo social com movimentos e entidades;
- 18 de maio — audiência com representantes patronais;
- 19 de maio (manhã) — debate sobre mulheres, saúde e dupla jornada;
- 19 de maio (tarde) — participação das centrais sindicais e entidades de trabalhadores;
- 25 de maio — discussão sobre trabalho rural;
- 26 de maio — votação do parecer na comissão especial;
- 27 de maio — votação no plenário e mobilização nacional convocada pelas centrais sindicais.
Dieese: instrumento fundamental de luta
Presidente do Dieese, José Gonzaga afirmou que a Jornada Nacional de Debates faz parte da missão histórica da entidade de assessorar o movimento sindical brasileiro e contribuir para melhorar as condições de vida da classe trabalhadora.
“O Dieese tem a missão de educar, formar e indicar caminhos. E o caminho é a unidade, a solidariedade e estarmos juntos em defesa dos interesses dos trabalhadores”, afirmou.
Gonzaga destacou que o Dieese possui papel estratégico na produção de estudos, pesquisas e dados que subsidiam as lutas sindicais em todo o país.
Segundo ele, a entidade ajuda a transformar reivindicações históricas dos trabalhadores em propostas concretas, sustentadas tecnicamente e capazes de enfrentar os argumentos do setor patronal.
O dirigente afirmou que a redução da jornada possui potencial para gerar impactos positivos em diversas áreas da vida social.
“Redução da jornada significa mais saúde, mais tempo para estudar, mais tempo com a família, mais qualidade de vida e mais desenvolvimento”, afirmou.










