Conferência Antifascista articula estratégia global contra extrema-direita
Encontro em Porto Alegre buscará construir articulação internacional, aprovar declaração política e fortalecer mobilização democrática; pré-conferência em São Paulo amplia mobilização nacional
Escrito por André Accarini - CUT Nacional 25 de fevereiro de 2026
Fruto da mobilização de movimentos que lutam pela democracia, a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, será um evento realizado de 26 a 29 de março de 2026, em Porto Alegre (RS), com o propósito de construir uma estratégia articulada internacionalmente para enfrentar o avanço da extrema-direita e do fascismo no Brasil e no mundo. A afirmação é de Quintino Severo, secretário adjunto de Relações Internacionais da CUT e integrante do comitê organizador do encontro.
Sediada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a conferência reunirá centrais sindicais, partidos de esquerda, movimentos sociais e entidades da educação do Brasil e de outros países. A CUT integra a organização do evento e participará ativamente das atividades e dos debates.
Organizada por forças antifascistas, a conferência em Porto Alegre será aberta com um ato de rua e terá painéis temáticos e atividades autogestionadas, voltadas ao fortalecimento dos movimentos sociais, da juventude e da solidariedade internacional no combate ao fascismo.
Pre-conferência em São Paulo
Como parte da preparação e da ampliação do debate, estão sendo realizadas pré-conferências em diferentes regiões do país. Uma delas será realizada em São Paulo, no dia 26, na sede da APEOESP (Praça da República,282). A iniciativa busca levar a pauta antifascista para além do Rio Grande do Sul e fortalecer a construção coletiva do evento.
Entre as entidades que participam do evento, além da CUT, estão partidos como o PT, o PSOL e o PCdoB, movimentos sociais como o MST, entidades e sindicatos como a UNE, a BUES, a CUT, a própria APEOESP, o ANDES-SN, entre diversas outras organizações construtoras da Conferência de Porto Alegre.
Para Quintino, essas atividades cumprem papel estratégico de mobilização e descentralização. “O importante da pré-conferência é exatamente para mobilizar”, afirma.
Segundo ele, os encontros preparatórios ajudam a ampliar o alcance do debate e a envolver pessoas que não conseguirão participar presencialmente da etapa principal em Porto Alegre.
A conferência
Para a CUT, que estará presente tanto na mobilização quanto na conferência internacional, a construção de unidade, a articulação global e a defesa intransigente da democracia são elementos centrais diante do cenário de avanço da extrema-direita. A conferência, avalia Quintino Severo, é parte desse esforço estratégico de organização política e solidariedade internacional.
“A conferência nasce da necessidade de compreender o fenômeno da extrema-direita como um movimento internacional, que exige resposta igualmente articulada. É um momento de a gente poder discutir uma estratégia mais a nível internacional de como enfrentar o fascismo”, afirma.
Ele destaca que o crescimento da extrema-direita não é um fenômeno isolado. “Boa parte dos países, tanto daqui na América Latina, no Brasil, mas também na Europa e na Ásia, vem crescendo o fascismo, vem crescendo a extrema direita. Então, por isso que é importante que a gente tenha uma estratégia mais articulada mundialmente”, ressalta.
Documento político de orientação
De acordo com o dirigente, um dos objetivos centrais do encontro será aprovar um documento final com posicionamento político claro.
“Nossa ideia é tirar um documento, uma declaração que aponte no caminho, na direção de orientar, de se pronunciar, de protestar, enfim, de combater o avanço da extrema direita e especialmente o avanço do fascismo no mundo.”
A proposta é que essa declaração funcione como instrumento de referência política para organizações sindicais, movimentos populares e forças progressistas, estabelecendo diretrizes de atuação comum diante das ameaças às democracias e à soberania dos povos.
Quintino explica que, neste primeiro momento, a conferência se configura como uma manifestação política organizada por partidos de esquerda, centrais sindicais e movimentos sociais. “Inicialmente ela é uma manifestação política, a partir das organizações que prepararam a conferência”, afirma.
Isso, no entanto, não significa que a iniciativa se limitará ao plano declaratório. “Deverá se desdobrar depois em ações, como de exigir dos Estados, principalmente, que tenham estratégia e tenham políticas para combater a extrema direita e o fascismo”, explicou o dirigente.
Papel do Estado e do Judiciário
Para o secretário adjunto de Relações Internacionais da CUT, o enfrentamento ao fascismo passa necessariamente pelo papel institucional do Estado. Ele destaca, em especial, a função do Judiciário.
“Quando eu falo de Estado, passa muito pelo Judiciário. Acho que os Judiciários, de forma geral, terão esse papel também de ajudar nas ações que possam inibir os hábitos da extrema direita”, afirma.
Ao citar a experiência brasileira recente, Quintino ressalta a importância da atuação institucional para conter iniciativas antidemocráticas.
“Nós aqui no Brasil vimos quanto foi importante a posição do STF, articulada, evidentemente, com outros poderes, no sentido de estabelecer regras e frear o avanço das ações da extrema direita”, lembrou Quintino.
A leitura é de que a defesa da democracia exige tanto mobilização popular quanto ação firme das instituições. Para ele, o Estado tem um papel importante nesse processo.
Ameaça global
Ao analisar o cenário internacional, Quintino aponta que o avanço da extrema-direita tem se manifestado de maneira mais evidente em países centrais da economia mundial. Ele cita os Estados Unidos como exemplo de uma das maiores economias do planeta que vive, em sua avaliação, iniciativas que se aproximam do fascismo.
“Hoje nós temos no mundo, especialmente por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma demonstração de que esse lado fascista, esse lado da supremacia econômica, se utiliza disso para exatamente apontar e adotar suas políticas”, afirma, ao mencionar atitudes relacionadas ao tratamento de imigrantes, cidadãos menos favorecidos e à relação com o próprio Estado.
Ele também cita a situação na Itália e em outros países europeus, além de movimentos que começam a aparecer na Ásia e nas Américas. “Há uma percepção muito evidente de que há um movimento no crescimento da extrema direita e um movimento de avanço do fascismo no mundo”, diz Quinitino.
Diante desse quadro, a conferência se propõe a articular forças progressistas em defesa da democracia, dos direitos e da soberania dos povos.
Programação e articulação
A conferência contará com atividades distribuídas ao longo de quatro dias. No dia 26 ocorre o Fórum de Autoridades Antifascistas, seguido de marcha de abertura. Nos dias seguintes, estão previstas conferências centrais, atividades autogestionadas e, ao final, a Assembleia Geral para aprovação da chamada Carta de Porto Alegre.
A organização reúne um amplo arco de entidades, entre elas a CUT, partidos políticos como o PT, o PSOL e o PCdoB, além de movimentos como o MST e entidades sindicais nacionais. A universidade anfitriã confirmou a cessão de espaços do Campus Central, incluindo o Salão de Atos.
Ação necessária…
Barrar o fascismo é essencial porque ele representa uma ameaça concreta aos direitos humanos, às liberdades democráticas e à justiça social. Historicamente, regimes fascistas aboliram eleições livres, suprimiram a oposição política, perseguiram povos e minorias e destruíram instituições democráticas — como aconteceu no século XX com Mussolini e Hitler.
No presente, o ressurgimento de forças extremistas e autoritárias explora crises econômicas e inseguranças sociais para promover xenofobia, racismo, LGBTfobia, misoginia e nacionalismo agressivo. Essas ideias corroem os direitos conquistados pelos trabalhadores e enfraquecem a democracia, ao atacar a autonomia dos sindicatos e restringir liberdades civis, como descrito no seu texto sobre restrições a greves e negociações coletivas.
Além disso, o fascismo historicamente busca eliminar o poder de organizações que defendem os direitos dos trabalhadores, destrói sindicatos e movimentos sociais e substitui o pluralismo por um Estado autoritário.
Por isso, barrar o fascismo hoje significa proteger a democracia, os direitos trabalhistas, a diversidade e a igualdade, e fortalecer ações coletivas, educação política e solidariedade internacional para enfrentar essas ameaças de forma organizada e democrática.
Com apoio de Brasil Escola e Jus Brasil










