Fim da escala 6×1 é sinal de que pessoas querem mais tempo para viver
Para pesquisadora, sindicatos vão ser protagonistas em processo de adequação do fim da 6x1
Escrito por : Girrana R. Teixeira | TVT News 5 de novembro de 2026
A cozinheira Maria Luísa Cerqueira, 26, acha ótimo o fim da escala 6×1 e acredita que quem é contra nunca trabalhou nessa jornada e “precisou resolver toda a vida em um dia”.
Estudante de Gastronomia, ela pretende aproveitar a folga a mais para descansar e estudar. “É muito difícil ter que dividir a minha rotina com os estudos e o trabalho. Eu já trabalhei em outros lugares [na escala 6×1]. Tenho oito anos na cozinha profissional e já trabalhei como telemarketing, que também era 6×1, mas às vezes é a proposta que tem naquele momento”, contou.
Maria Luísa tem familiares e amigos que já trabalharam na escala 6×1 e garante que, atualmente, muitos escolhem não trabalhar dessa forma e procuram outros empregos.
A regra que estabelece dois dias de descanso entra em vigor a partir do dia 15 de dezembro. Neste primeiro momento, a jornada cai de 44 horas para 42 horas semanais e, a partir de dezembro do ano que vem, a jornada semanal passará a ser de 40 horas.
No Brasil, 14,8 milhões de trabalhadores celetistas cumprem a escalada 6×1. Além disso, 37,2 milhões atuam na jornada de 44 horas semanais. Todos esses serão impactados pelas novas regras.
Antes de Lula ser reeleito, o senador Rogério Marinho (PL), já pressionava com uma PEC que poderia flexibilizar a jornada de trabalho, permitindo ao patrão pagar ao empregado somente as horas trabalhadas. Para a professora e pesquisadora do Cesit (Centro de Estudos Sindicais de Economia do Trabalho) e do Instituto de Economia da Unicamp, Marilane Teixeira, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no pleito consolidou a conquista do 6×1.
“Já tem iniciativa de cláusulas nos instrumentos coletivos que tratam do tema, porque tem vários aspectos, não é só reduzir para cinco dias da semana e 42 horas. Tem [que estabelecer] como é que vai se dar as folgas, distribuir essa jornada ao longo da semana […] isso coloca os sindicatos, de alguma maneira, no centro dessa discussão, os sindicatos vão ter um protagonismo muito grande nesse processo”, explicou.
O decreto para regulamentar o fim da escala 6×1 está previsto para sair na próxima segunda-feira (9) de acordo com declaração do ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho.
Implementação da 6×1

Teixeira enxerga que, existe uma pressão e um discurso de empresas de pequeno porte e microempresas, de que serão mais prejudicadas, principalmente, as ligadas ao comércio que precisam permanecer abertas durante os finais de semana.
Não é o caso de Herbert Bierwagen, 50, dono da padaria artesanal “La Baguette”, na cidade de São Paulo. O empresário afirma que não vai ter prejuízos, já que o turnover, que é quando os funcionários deixam um empresa, vai cair. Bierwagen também defende que a mesma queda deve acontecer com absenteísmo, que é o atraso ou ausência antecipada do trabalhador.
“Isso acaba revertendo em lucro para a empresa. A empresa fica mais produtiva, mais robusta. Dentro dos meandros da administração, da microeconomia, a gente traz mais gente para dentro do universo da empresa, algo em torno de 15 a 20% de contratação. Gente diferente, ares novos, cabeças novas”.
Ele conta que antes da proposta ser aprovada já vinha se preparando com contratações e conversando com os trabalhadores.
Na padaria os funcionários já têm o domingo fixo de folga e o plano é que, a partir de dezembro, seja estabelecido um rodízio para que todos consigam durante o mês emendar o domingo com a segunda.
Teixeira enxerga o fim da escala 6×1, em conjunto com a Política de Valorização do Salário Mínimo, as duas bandeiras mais importantes para a classe trabalhadora desde a Constituição de 1988.
“Sinaliza novos tempos, em que as pessoas querem ter mais tempo para viver, usufruir das outras dimensões da vida, que elas não querem morrer trabalhando. O que é que elas estão dizendo com isso? Estão dizendo que, hoje, as condições de trabalho são insustentáveis, que elas querem justamente ter outras perspectivas”, concluiu.










