Classe trabalhadora fez a diferença nas ruas e nas urnas, avalia cientista política
Para a historiadora e cientista política, Ana Prestes, as mobilizações dos trabalhadores, o protagonismo da juventude e o medo de retrocessos sociais fortaleceram a participação popular no segundo turno
Escrito por : Walber Pinto | Editado por: Rosely Rocha | CUT Brasil 3 de novembro de 2026
Nas ruas, nas portas das fábricas, no comércio, nos serviços públicos e nas redes sociais, a classe trabalhadora brasileira entrou na disputa eleitoral com uma mensagem clara deixada nas urnas, e que atravessou fronteiras: defender a democracia também significava proteger direitos conquistados ao longo de décadas e impedir retrocessos sociais.
Em todo o Brasil, trabalhadores e trabalhadoras se organizaram durante o segundo turno das eleições de 2026, participando de atos, assembleias, panfletagens e outras atividades de mobilização em defesa de um projeto de país que garantisse emprego, renda, melhores condições de trabalho e dignidade.
As mobilizações ganharam força na reta final da campanha e contribuíram para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu Flávio Bolsonaro (PL) com 51,79% dos votos válidos a 48,21%. O resultado foi marcado por uma virada histórica, construída também com a participação e o engajamento da classe trabalhadora.
A possibilidade de perder direitos conquistados diante de um eventual avanço da extrema direita pesou na mobilização nas ruas e nas redes sociais. Para quem depende do próprio trabalho para sobreviver, o resultado das eleições representava mais do que a escolha de um presidente. Estavam em jogo as condições de vida, as garantias trabalhistas e a possibilidade de avançar em novas conquistas.
Em entrevista ao Portal CUT, a cientista política e historiadora, Ana Prestes, avalia que a participação dos trabalhadores foi decisiva para ampliar o alcance da campanha e fortalecer a defesa de um projeto democrático.
Segundo ela, a mobilização não ficou restrita aos sindicatos e às organizações tradicionais do movimento sindical, mas alcançou diferentes segmentos da classe trabalhadora, incluindo trabalhadores informais, de plataformas digitais, do comércio, do campo e dos serviços públicos.
“A classe trabalhadora fez a diferença para que a presidência da República se mantivesse sob o comando de um trabalhador” – Ana Prestes
Para a cientista política, a dimensão territorial foi fundamental nesse processo. As manifestações, assembleias e atividades de rua permitiram que organizações de diferentes regiões apresentassem suas pautas e dialogassem com as realidades locais. A cientista política destaca que a classe trabalhadora brasileira é diversa e não se limita às categorias organizadas em sindicatos.
Ela também chama a atenção para a força da campanha pelo fim da escala 6×1, que ganhou dimensão nacional a partir da articulação entre a CUT, as demais centrais e todo o movimento sindical e o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado pelo comerciário Rick Azevedo, do Rio de Janeiro, que se elegeu deputado federal nessas eleições.
“A discussão sobre o fim da escala 6×1 é um exemplo de como uma reivindicação surgida da experiência cotidiana dos trabalhadores pode alcançar dimensão nacional e produzir mudanças institucionais”, avalia.
Segundo Ana, a pauta se transformou em um importante vetor de mobilização durante o terceiro mandato de Lula e também repercutiu no processo eleitoral.
Medo de perder direitos levou trabalhadores às urnas
O receio de retrocessos trabalhistas e sociais foi outro elemento importante na disputa eleitoral. A possibilidade de perder garantias como aposentadoria, férias remuneradas, salário mínimo, proteção contra demissões e acesso a serviços públicos mobilizou trabalhadores que reconhecem o impacto direto dessas políticas em suas vidas.
Ana Prestes considera que esse temor foi determinante para atrair parte significativa do eleitorado que não havia comparecido às urnas no primeiro turno.
“Para quem depende do salário para sobreviver, essas questões tiveram consequências imediatas”, diz.
Defesa das políticas públicas
A disputa também evidenciou a importância de defender políticas públicas que garantam acesso à educação, saúde, moradia e oportunidades de trabalho. A eleição colocou em confronto projetos distintos para o país e mobilizou setores que enxergaram na vitória da extrema direita uma ameaça às conquistas sociais e aos direitos da população.
“A discussão não envolveu apenas a preservação de conquistas históricas, mas também a necessidade de ampliar a proteção social para milhões de brasileiros que vivem em condições de informalidade, terceirização e precarização do trabalho”
Juventude também ocupou as ruas
Estudantes e jovens trabalhadores ocuparam as ruas, organizaram manifestações e ampliaram a mobilização contra o avanço da extrema direita.
Na avaliação da cientista política, esse movimento teve papel fundamental na disputa eleitoral. Ela aponta que a juventude enfrenta dificuldades relacionadas à precarização do trabalho, ao acesso à moradia, à permanência nas universidades e às incertezas sobre o futuro econômico e ambiental.
“A valorização da educação, a assistência estudantil e a geração de empregos de qualidade ajudaram a aproximar os jovens do debate político. O engajamento dessa geração combinou diferentes formas de organização, das redes sociais aos movimentos estudantis, coletivos culturais e manifestações de rua. O temor ao fascismo e aos riscos para a democracia também contribuiu para levar milhares de jovens às mobilizações”.
Comemorações nos locais de trabalho simbolizam a vitória
Em postos de trabalho, lojas e equipes de limpeza urbana, trabalhadores e trabalhadoras comemoraram o resultado das urnas, transformando ambientes cotidianos em espaços de manifestação política e celebração coletiva.
De acordo com Ana Prestes, essas manifestações têm um significado que vai além da preferência eleitoral. Elas expressam expectativas em relação às condições de trabalho, à renda, à manutenção de direitos e ao futuro do país.
“Antes de tudo significa coragem, pois, como vimos, muitos são ameaçados inclusive de perderem suas vagas por empresários ligados à extrema direita”, afirma.
A trajetória política de Lula está diretamente ligada às mobilizações operárias do ABC paulista e à organização sindical que marcou a luta pela redemocratização do Brasil. Para Ana, a reeleição representa também a reafirmação dessa trajetória de um trabalhador que chegou à Presidência da República.
Desafios para o próximo governo
Com a vitória nas urnas, a classe trabalhadora também apresenta ao próximo governo uma agenda de reivindicações. Entre os principais desafios estão a garantir a implementação da redução da jornada de trabalho, enfrentar a informalidade e a precarização, ampliar a proteção social, fortalecer a negociação coletiva e criar empregos de qualidade.
Ana Prestes avalia que Lula terá de governar em um país politicamente dividido, o que exige diálogo permanente com diferentes setores da sociedade. Ao mesmo tempo, destaca que os avanços nas condições de vida dos trabalhadores precisam acompanhar o crescimento econômico e os ganhos de produtividade.
“A valorização da educação e da saúde públicas, o acesso à moradia e à terra e a melhoria da renda também devem fazer parte dos compromissos do próximo governo”, destaca.
Para a cientista política, a participação popular não termina com a apuração dos votos.
“Sindicatos, centrais sindicais, movimentos sociais e organizações da sociedade civil continuarão tendo papel fundamental na apresentação de demandas, na negociação de políticas públicas e na fiscalização das medidas adotadas pelo governo”, finaliza.










