Fascismo, nazismo e a família Bolsonaro. Saiba o que está em jogo nessas eleições
Histórico da família Bolsonaro, promessa de anistia e planos de mudar a Constituição sustentam alertas sobre ameaças à democracia.
Escrito por Redação CUT | texto: André Accarini 15 de outubro de 2026
A mecânica de ascensão, conquista e tentativa de perpetuação no poder da família Bolsonaro guarda pontos de semelhança com a trajetória que levou os nazistas ao governo da Alemanha. Um deles merece atenção: a derrota de uma tentativa de golpe não significa que seus responsáveis tenham abandonado o projeto autoritário.
Em novembro de 1923, Adolf Hitler participou de uma tentativa de derrubar o governo alemão, conhecida como o Putsch da Cervejaria. O golpe fracassou. Condenado por alta traição a cinco anos de prisão, foi libertado em dezembro de 1924, após cumprir menos de um ano. Depois disso, passou a buscar o poder pela participação eleitoral, mantendo o objetivo de destruir a democracia.
Em janeiro de 1933, após o crescimento do Partido Nazista e acordos com setores conservadores, Hitler foi nomeado chanceler. A partir do governo, desmontou as instituições democráticas. Em poucos meses, a Alemanha se tornou uma ditadura de partido único. O restante da história é conhecido: perseguição, guerra e um Estado organizado para o extermínio.
Auschwitz tornou-se símbolo desse desfecho. O complexo de campos de concentração e extermínio é o local onde o regime nazista assassinou cerca de 1,1 milhão de pessoas, a maioria judeus . Nas redes sociais, ´pe crescente o número de postagens sobre essa que é uma das marcas mais cruieis da hsitória da humanidade. Uma mensagem que circula nas redes diz: “Ninguém votou em Auschwitz, mas votaram em quem construiu”. A frase sintetiza o alerta de que o apoio que leva um movimento autoritário ao poder pode abrir caminho para consequências muito além das promessas de campanha.
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No Brasil, a família Bolsonaro já demonstrou intenções de ruptura por meio de declarações e ações. A defesa da ditadura, as ameaças ao Supremo Tribunal Federal e a tentativa de impedir a transferência do poder após a derrota eleitoral de 2022 compõem uma trajetória que ajuda a compreender os alertas sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Entre essas tentativas, que serão abordadas a seguir, estão a promessa de anistiar os condenados pela tentativa de golpe, as declarações sobre mudar a Constituição e o uso de referências à propaganda fascista na campanha acrescentam elementos a esse histórico.
A comparação histórica exige reconhecer diferenças entre os dois países e movimentos. Seu propósito é examinar como forças autoritárias podem recorrer às eleições depois de fracassar pela via golpista — e usar o poder conquistado para enfraquecer os controles que deveriam limitá-las.
Semelhanças com o nazismo
O fascismo, que chegou ao governo italiano sob Benito Mussolini, combina nacionalismo extremo, culto ao líder, rejeição ao pluralismo e violência contra adversários. O nazismo alemão compartilhou essas características, mas teve no racismo e no antissemitismo fundamentos de sua organização política.
A construção de inimigos é parte desse mecanismo. Problemas complexos passam a ter culpados previamente escolhidos. O chefe promete salvar a nação, enquanto quem o contesta é apresentado como ameaça. A propaganda transforma divergências em uma disputa entre os supostos defensores do país e aqueles que deveriam ser afastados da vida pública.
Críticos do bolsonarismo identificam aproximações nessa forma de mobilização: o líder tratado como “mito”, a associação de adversários ao comunismo, os ataques à imprensa e a apresentação de instituições independentes como obstáculos à vontade popular.
Também existem episódios concretos envolvendo referências à propaganda autoritária. Em janeiro de 2020, Roberto Alvim, então secretário especial da Cultura de Jair Bolsonaro, divulgou um pronunciamento com trechos semelhantes aos de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista. A repercussão levou à sua demissão.
Mais recentemente, em 8 de outubro, um canal oficial do PL no WhatsApp publicou uma imagem de Flávio com o rosto cercado pela repetição da expressão “Tropa do Flávio”. A composição remetia à fachada do Palazzo Braschi, em Roma, usada pela propaganda de Mussolini em 1934. A publicação foi apagada após as críticas. A referência, nesse caso, era ao fascismo italiano.
Slogans como “Deus, Pátria e Família”, também adotado pelo integralismo brasileiro, entram nessa discussão. A defesa da religião, da família ou do país não caracteriza, por si só, um movimento fascista. O problema aparece quando esses valores são usados para negar legitimidade a quem pensa, vive ou se organiza de outra maneira.
Símbolos e semelhanças visuais ajudam a investigar uma orientação política. O elemento de maior peso, porém, é a conduta diante das regras democráticas: aceitar a oposição, respeitar decisões institucionais e reconhecer uma derrota eleitoral.
Histórias de família
A jornalista Flávia Tavares, editora do Meio, recupera uma sequência de manifestações que mostra como o autoritarismo atravessa a trajetória da família Bolsonaro.
Em entrevista à TV Bandeirantes, em 1999, Jair Bolsonaro afirmou que daria um golpe e defendeu uma guerra civil, mencionando “matando uns 30 mil”. Na declaração reproduzida pela jornalista, o então deputado dizia que o voto não produziria a mudança que desejava e defendia a passagem para uma ditadura.
Em 2016, ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador. Chamou o coronel de “o pavor de Dilma Rousseff”, vinculando seu voto à violência sofrida pela então presidenta durante o regime militar.
As manifestações dos filhos deram continuidade a essa orientação. Eduardo Bolsonaro afirmou, em 2018, que bastariam um soldado e um cabo para fechar o Supremo. Em 2019, falou na possibilidade de um novo AI-5, instrumento usado pela ditadura para ampliar a repressão e suprimir direitos.
Segundo Tavares, Flávio publicou, em 2017, uma biografia do pai em que nega o golpe de 1964, exalta a ditadura, elogia Ustra e desacredita as urnas eletrônicas.
Essa sequência importa porque permite avaliar a candidatura pelo histórico de seu principal grupo político. Uma apresentação mais moderada durante a campanha não apaga manifestações anteriores nem esclarece, sozinha, quais compromissos orientarão um eventual governo.
Poder a todo custo
Em 2022, a resistência à alternância de poder ultrapassou o discurso. A tentativa de golpe buscou manter Jair Bolsonaro na Presidência e impedir a posse de Lula. O processo terminou com a condenação do ex-presidente e de outros integrantes do chamado núcleo crucial da trama pelo Supremo Tribunal Federal.
É nesse ponto que o paralelo com a história alemã se torna relevante: uma tentativa de ruptura derrotada pode ser seguida por uma reorganização eleitoral. A participação nas urnas precisa ser examinada junto aos compromissos de quem pretende retornar ao governo.
Flávio promete anistiar os condenados pela tentativa de golpe. Na análise de Tavares, a candidatura representa a continuidade do projeto do pai, incluindo a intenção de reverter sua responsabilização.
A jornalista também reproduz uma entrevista à Folha, de 2025, na qual Flávio discutiu o que poderia acontecer se o Supremo derrubasse um indulto a Jair. O senador mencionou a possibilidade de “uso da força” e de interferência entre os Poderes. Negou estar fazendo uma ameaça, mas colocou a força entre os cenários de uma disputa envolvendo a liberdade do pai.
Agora, associa a força de seus aliados no Congresso à intenção de mudar a Constituição para “redemocratizar este país”. A declaração exige esclarecimento sobre quais mudanças pretende promover e quais instituições seriam atingidas.
O apoio parlamentar pode facilitar a aprovação de propostas. Não constitui autorização para eliminar controles sobre o Executivo. O risco apontado por Tavares é que um governo bolsonarista reúna condições políticas para enfraquecer esses controles e prolongar sua permanência no poder.
O discurso muda quando o voto está em disputa
As mudanças de posição de Flávio sobre políticas sociais e direitos trabalhistas também precisam ser examinadas. Elas não comprovam, por si mesmas, uma intenção golpista. Permitem, entretanto, comparar o histórico do candidato com as promessas apresentadas aos eleitores.
No caso do Bolsa Família, uma reportagem do Estadão, publicada pelo UOL, recuperou manifestações em que Flávio chamava o programa de “bolsa-farelo” e o associava à dependência eleitoral. Em junho de 2026, passou a apresentá-lo como um direito e a defender sua manutenção para quem ingressa no mercado formal. Procurado, negou mudança de posição.
Sobre aposentadorias e benefícios, a Folha informou, em 7 de outubro, que assessores econômicos estudavam desvincular os reajustes da Previdência e do BPC dos ganhos reais do salário mínimo, além de alterar os pisos de saúde e educação. A campanha contestou a reportagem e afirmou que essas propostas não constavam do plano oficial. No dia seguinte, Flávio prometeu manter aumentos das aposentadorias acima da inflação.
Na discussão sobre a escala 6×1, a mudança foi explícita. Após criticar a iniciativa, Flávio anunciou, em 13 de outubro, que votaria pelo fim da escala. Manteve ressalvas e afirmou que o governo deveria compensar os empresários. Trata-se de uma declaração de voto, que precisa ser confrontada com sua atuação na votação.
Na mesma data, o Painel da Folha informou que aliados e empresários haviam recebido a sinalização de que, se eleito, Flávio defenderia mudanças para ampliar a negociação entre empresas e trabalhadores. Segundo a coluna, a intenção seria rever pontos da proposta, sem derrubá-la integralmente.
A distância entre críticas anteriores, compromissos públicos e propostas discutidas com aliados torna necessário cobrar respostas precisas. Para quem depende de um benefício ou trabalha seis dias por semana, essa diferença pode determinar renda, descanso e proteção social.
O risco de ruptura alcança a vida cotidiana
Na avaliação de Tavares e de outros críticos, o Brasil enfrenta uma ameaça que pode avançar pela concentração de poder dentro das instituições. A colunista Milly Lacombe, por exemplo, relaciona a propaganda associada a Mussolini aos riscos autoritários da candidatura. Essas são avaliações identificáveis; não permitem afirmar que exista consenso entre especialistas ou medir o que pensa a maioria da sociedade.
Também seria impreciso apresentar uma ruptura como inevitável ou um “abismo sem volta”. O alerta se sustenta em um risco concreto, com antecedentes, cujas consequências podem ser profundas e difíceis de reverter.
Para a população, democracia significa poder cobrar um governante, denunciar abusos, organizar uma greve e defender direitos sem ser tratado como inimigo. Quando essas garantias são enfraquecidas, trabalhadores, organizações sociais, jornalistas e grupos perseguidos ficam mais expostos ao poder de quem governa.
A história alemã mostra que derrotar um golpe não encerra necessariamente a ameaça. No Brasil, a tentativa de ruptura foi contida, mas seu principal dirigente continua sendo a referência de uma candidatura que promete anistia e mudanças constitucionais.
Esse histórico precisa acompanhar a leitura das promessas de campanha. O risco está em entregar novos instrumentos de poder a um grupo que já demonstrou disposição para ultrapassar os limites da democracia — e permitir que a próxima tentativa encontre menos resistência.










