CENSURA NAS REDES

Meta sob suspeita: suposta restrição a conteúdo progressista afetam imparcialidade

“Censura” nas redes da empresa (WhatsApp, Instagram e Facebook) atingiu mais de 1,1 mil de perfis que apoiam a reeleição de Lula, inclusive do presidente da CUT

Escrito por : Redação CUT | Editado por: Luiz R Cabral 14 de outubro de 2026
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Autor da foto: Secom / IA

Em ano de eleição presidencial, aparecer nas redes sociais faz diferença. É por meio delas que candidatos divulgam propostas, movimentos sociais convocam manifestações e eleitores acompanham os acontecimentos da campanha. Por isso, denúncias de restrições a conteúdos referentes reeleição do presidente Lula  nas plataformas da Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, geram desconfiança sobre a transparência e idoneidade da empresa.

Segundo os relatos, conteúdos relacionados à campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estariam chegando a menos pessoas. Isso pode acontecer mesmo quando uma postagem permanece no ar: se a plataforma reduz sua distribuição, menos usuários têm acesso às mensagens, propostas e atividades da campanha.

O problema vai além da perda de visualizações. Em uma eleição, limitar o alcance de informações pode reduzir a visibilidade de candidatos, movimentos e reivindicações. Se as regras não forem objetivas e aplicadas de maneira coerente, conceitos equivocados, criados pelas plataformas, podem afetar o debate público e as condições em que os eleitores formam suas opiniões.

Mais de 1,1 mil relatos de restrições

A organização de direitos digitais CTRL+Z reuniu mais de 1,1 mil relatos de problemas nas plataformas da Meta. As denúncias incluem publicações removidas, contas restringidas, limitações de funcionalidades e queda no alcance dos conteúdos. Segundo a organização, parte dos relatos envolve perfis que publicaram mensagens de apoio a Lula.

Até o momento, não foram apresentados dados públicos consolidados que permitam comparar o número de publicações removidas ou restringidas de apoiadores de Lula com o de conteúdos ligados a Flávio Bolsonaro. Essa falta de informações impede uma avaliação objetiva sobre a existência de tratamento desigual e reforça a cobrança por transparência.

A CTRL+Z lançou a campanha “Meta, tira a mão da nossa eleição”, que cobra medidas para garantir a recuperação de contas e publicações, a criação de canais de contestação e a divulgação dos critérios usados pela empresa. A iniciativa também convoca a população a assinar e compartilhar uma petição.

Para participar, acesse Meta, tira a mão da nossa eleição.

Instagram retirou 18 publicações de Sergio Nobre

Um dos casos que merecem uma justificativa é o de Sergio Nobre, presidente nacional da CUT. Segundo as denúncias, o Instagram retirou 18 publicações de seu perfil, a maioria relacionada a manifestações de rua.

Esse tipo de conteúdo é importante para divulgar mobilizações, mostrar a participação dos trabalhadores e dar visibilidade às reivindicações do movimento sindical. Quando uma publicação é removida, ela deixa de circular naquele espaço e perde a oportunidade de alcançar parte do público.

Testes com a inteligência artificial da Meta levantam dúvidas

O funcionamento da inteligência artificial da empresa também entrou no centro da discussão. Testes divulgados pelo Movimento 342 Artes — Cultura e Democracia mostraram respostas diferentes a pedidos semelhantes de criação de imagens com mensagens políticas.

Nas capturas de tela compartilhadas pelo movimento, a Meta AI atende a um pedido para produzir uma arte com a frase “Dia 25 é Flávio 22”, mas recusa uma solicitação equivalente com a frase “Dia 25 é Lula 13”. Em outro teste, a ferramenta também não aceita substituir o nome de Flávio Bolsonaro pelo de Lula em uma imagem já criada.

Em uma das respostas, a própria ferramenta menciona a possibilidade de que verificações automáticas de segurança impeçam determinadas gerações. Os registros, porém, não esclarecem por que pedidos semelhantes receberam tratamentos diferentes nem permitem concluir, isoladamente, que houve uma decisão deliberada para favorecer um candidato.

O episódio exige explicações da empresa. Em período eleitoral, ferramentas de inteligência artificial podem ser usadas para produzir materiais de campanha e mensagens políticas. Se solicitações semelhantes recebem respostas distintas, é necessário conhecer os critérios por trás dessas decisões e verificar se eles são aplicados de forma consistente.

A reportagem da colunista Thais Bilenky, do UOL, publicada em 14 de outubro de 2026, também aponta uma possível diferença de tratamento da inteligência artificial da Meta, integrada ao WhatsApp, na produção de materiais de campanha de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Segundo a jornalista, a ferramenta recusou criar uma bandeira com a inscrição “Lula 13”, mas gerou imagens com “Flávio 22”, inclusive do senador na Avenida Paulista. A própria IA reconheceu a discrepância, levantando questionamentos sobre a isonomia e a neutralidade das plataformas durante o processo eleitoral. O episódio ocorre em meio a denúncias da campanha de Lula ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre possíveis restrições à circulação de conteúdos favoráveis ao petista.

Onde está a paridade no tratamento?

As denúncias colocam uma questão no centro do debate: a Meta aplica as mesmas regras a conteúdos ligados a Lula e a Flávio Bolsonaro?

Até agora, não foram apresentados dados que indiquem que publicações de Flávio tenham sido removidas nas mesmas circunstâncias relatadas por apoiadores de Lula. Essa ausência de registros não prova que o candidato tenha recebido tratamento privilegiado, mas mostra que faltam informações para comparar os dois casos.

A empresa precisa esclarecer quais critérios utiliza, como suas regras são aplicadas e quais mecanismos existem para contestar remoções e restrições de alcance. Não se trata de pedir privilégios para um campo político, mas de garantir que as regras sejam claras e valham para todos.

Em resposta às críticas, a Meta reconheceu falhas técnicas, mas negou ter favorecido Flávio Bolsonaro ou prejudicado deliberadamente a campanha de Lula. A empresa também afirmou que busca cumprir as regras eleitorais e garantir tratamento igual aos usuários. A questão, agora, é saber se os dados e os procedimentos adotados permitem verificar essa afirmação de forma independente.

Como os algoritmos influenciam o que aparece nas redes

Os algoritmos do Facebook e do Instagram ajudam a decidir quais publicações aparecem para cada usuário e em que ordem. Para isso, levam em conta fatores como as contas seguidas, as interações anteriores, o tempo dedicado a cada postagem e a probabilidade de a pessoa curtir, comentar ou compartilhar um conteúdo.

Esses mecanismos influenciam a visibilidade das publicações. Uma postagem pode continuar disponível, mas chegar a menos pessoas se deixar de ser recomendada com a mesma frequência. Por isso, a queda no alcance e a remoção de um conteúdo são situações diferentes e precisam ser analisadas separadamente.

Como a Meta não divulga todos os detalhes de seus sistemas de distribuição, é difícil avaliar de fora se determinadas correntes políticas estão sendo prejudicadas. A divulgação de critérios claros e de dados que permitam comparar os resultados ajudaria a esclarecer as denúncias.

Estudos mostram que a distribuição de conteúdo merece atenção

Um estudo publicado em 2021 na revista científica PNAS identificou que, no Twitter, os partidos de direita e centro-direita tiveram maior amplificação de conteúdo em seis dos sete países analisados. Em outras palavras, as publicações desses grupos ganharam mais visibilidade na plataforma. O resultado reforça a necessidade de investigar como os algoritmos, responsáveis por selecionar e recomendar o que aparece para cada usuário, podem influenciar o debate político. Leia o estudo.

Experimentos realizados durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2020, cujos resultados foram publicados em 2023 na revista Science, também demonstraram que a forma de organizar o feed interfere nos conteúdos políticos vistos pelos usuários. Ao substituir a seleção personalizada das publicações por uma ordem cronológica, os pesquisadores observaram mudanças na exposição a diferentes informações e opiniões políticas.

Já a Human Rights Watch documentou mais de 1.050 casos de remoção de publicações ou redução de sua visibilidade no Facebook e no Instagram em 2023, envolvendo conteúdos relacionados à Palestina. A investigação identificou falhas e inconsistências nos sistemas de moderação da Meta, levantando questionamentos sobre a transparência dos critérios utilizados para restringir publicações e sobre os impactos dessas decisões na liberdade de expressão.

Transparência é uma exigência democrática

Em uma eleição, os efeitos das decisões das plataformas não podem ser tratados como um detalhe técnico. Quando uma publicação perde alcance, uma mobilização deixa de aparecer para parte do público e, por consequência, interfere em suas decisão..

As denúncias envolvendo a campanha de Lula precisam ser apuradas, assim como a ausência de dados comparáveis sobre publicações ligadas a Flávio Bolsonaro. Em nota, a empresa apenas declarou que cumpre as normas eleitorais brasileiras e está comprometida com a isonomia no uso de suas plataformas. Sobre as restrições que teriam reduzido o alcance de publicações ligadas à campanha de Lula, a companhia atribuiu os problemas a falhas técnicas.

 

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