Congresso fica mais conservador, mas bancada progressista resiste para 2027
Esquerda e centro-esquerda elegem 124 deputados, ampliam a federação PT/PCdoB/PV e conquistam votações expressivas; avanço do PL aumenta desafios para a defesa de direitos
Escrito por Redação CUT | texto: André Accarini 7 de outubro de 2026
O Congresso que tomará posse em 1º de fevereiro de 2027 terá como maior força a ala conservadora, com o crescimento do PL na Câmara e no Senado. A bancada progressista elegeu 124 deputados federais, dois a menos do que em 2022. Também ampliou a representação da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, de 81 para 88 cadeiras.
A resistência também aparece nas votações individuais. Em São Paulo, Erika Hilton (PSOL) foi reeleita com 1.596.472 votos e Sâmia Bomfim (PSOL), com 583.107. As duas ficaram, respectivamente, em segundo e terceiro lugares no estado, segundo o TRE-SP. Erika tornou-se a mulher mais votada da história para a Câmara.
O resultado combina a continuidade de uma base progressista relevante com um ambiente mais difícil para a aprovação de suas propostas. O avanço do PL aumenta a pressão conservadora sobre a agenda legislativa e exige maior articulação para defender direitos.
Campo progressista resiste
Considerando PT/PCdoB/PV, PSB, PSOL/Rede e PDT, o campo progressista ocupará 24,2% das 513 cadeiras da Câmara. Na comparação com os 126 deputados eleitos por essas forças em 2022, a redução foi de 1,6%.
A federação liderada pelo PT sustentou o desempenho do grupo: ganhou sete cadeiras em relação à eleição anterior. PSB e PSOL/Rede também cresceram nesse recorte, passando de 14 para 15 deputados cada.
A queda concentrou-se no PDT, que elegeu seis deputados, contra 17 em 2022. Portanto, não houve uma retração generalizada das bancadas progressistas: três dos quatro grupos ampliaram sua representação na comparação entre eleições.

Fonte: tabela do DIAP sobre a evolução das bancadas. Total progressista calculado pela soma dos grupos relacionados.
É preciso distinguir os resultados eleitorais da composição atual. Trocas de partido e outras mudanças alteram as bancadas durante o mandato. Em relação aos 127 deputados que esses grupos possuem hoje, a redução é de três cadeiras; em relação aos eleitos em 2022, de duas.
Segundo Neuriberg Dias, que coordena os estudos do DIAP, o campo Bolsonarista elegeu 137 deputados (PL e NOVO) e o de esquerda 124 nomes (PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PDT e PSB. E no Senado, 31 contra 15 da esquerda, foi o resultado mais contundente desse campo.
“A eleição do PL, com 121 deputados na Camara e 28 no Senado, dá ao bolsonarismo maior influencia no Congresso a partir de fevereiro, mas está longe de lhe assegurar maioria para fazer o que bem entender. O Centrão, portanto, não perdeu sua conhecida condição de fiel da balança. Esse partidos juntos ainda detém 252 deputados federais e 35 senadores da República”, diz.
A avaliação de Neuriber é de que o PL, caso eleja o próximo presidente da República, precisará dos partidos de centro para construir maiorias e, sobretudo, para alcançar os três quintos necessários à aprovação de emendas constitucionais. “São 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos em cada Casa. A força conquistada nas urnas foi enorme, mas não dispensa a necessidade de compor com os demais partidos”, ele explica.
Votos expressivos
Além de Erika e Sâmia, outras candidaturas desse campo conquistaram votações expressivas em São Paulo. Tabata Amaral (PSB) recebeu 476.383 votos; Guilherme Cortez (PSOL), 275.450; Professora Luciene Cavalcante (PSOL), 253.778; e Luna Zarattini (PT), 233.733.

Fonte: relação de eleitos do TRE-SP. Exemplos paulistas, sem constituir um ranking nacional.
Esses resultados mostram que o avanço conservador convive com forte apoio eleitoral a candidaturas progressistas. A votação de Erika dá destaque à parlamentar que apresentou uma das propostas pelo fim da escala 6×1, tema que mobilizou trabalhadores e trabalhadoras e ganhou espaço no Congresso.
Direita avança
O PL terá 121 deputados federais. Pela tabela do DIAP, são 22 a mais do que os 99 eleitos em 2022 e 23 a mais do que sua bancada atual. O partido ocupará 23,6% da Casa.
O Novo também cresceu: passou de três eleitos em 2022 para dez em 2026. Entretanto, o fortalecimento dessas siglas não significou expansão de todos os partidos da direita e do centro.
PP/União Brasil caiu de 98 deputados atuais para 87; PSD, de 48 para 43; MDB, de 38 para 36; e PSDB/Cidadania, de 19 para 11.
A soma de PP/União, PSD, Republicanos, MDB, Podemos, Solidariedade/PRD e Avante — agrupamento amplo usualmente associado ao Centrão — recuou de 265 cadeiras atuais para 246. A classificação não significa que esses partidos votem sempre juntos, mas ajuda a mostrar que o crescimento do PL ocorreu também em meio à perda de espaço de outras forças.
A nova Câmara

Fonte: DIAP.
Senado mais difícil
No Senado, o PL elegeu 19 parlamentares e deverá alcançar 28 das 81 cadeiras, segundo o levantamento do DIAP. Terá mais de um terço da Casa, mas precisará de aliados para formar maioria.
Nesse mesmo quadro, o PT elegeu sete senadores e passa de nove para dez cadeiras. O PSB terá quatro, o PDT uma e a Rede uma. O PSOL não elegeu senador. Somadas, essas legendas chegam a 16 cadeiras, contra 17 na composição atual indicada pelo DIAP.

Fonte: quadro de composição do DIAP. Projeção sujeita a alterações por suplências e mudanças partidárias.
Entre os senadores do campo progressista reeleitos estão Humberto Costa (PT-PE), Jaques Wagner (PT-BA), Rogério Carvalho (PT-SE) e Cid Gomes (PSB-CE).
Das 54 vagas disputadas neste ano, 40 serão ocupadas por novos senadores e 14 por reeleitos. A renovação corresponde a aproximadamente 74% das cadeiras em disputa. Os outros 27 mandatos seguem até janeiro de 2031.
Defesa dos direitos
A leitura dos resultados aponta para um Congresso mais conservador, sobretudo pelo fortalecimento do PL nas duas Casas. A bancada progressista, porém, preservou quase toda sua representação eleitoral na Câmara, ampliou a federação liderada pelo PT e manteve candidaturas com forte apoio popular.
Esse apoio terá de se traduzir em articulação parlamentar e mobilização social. A defesa de direitos trabalhistas, dos serviços públicos e da distribuição de renda dependerá da capacidade de construir maiorias em um Congresso no qual as forças conservadoras ganharam mais espaço.










