Saúde Pública

Indicado de Flávio Bolsonaro ao ministério da Saúde defende empresas privadas no SUS

Cláudio Lottenberg tem afirmado que, se for ministro da saúde, ampliará as parcerias público-privadas (PPPs), Organizações Sociais de Saúde (OSS) e contratação de serviços da rede privada, no SUS

Escrito por Rosely Rocha | CUT Nacional 2 de outubro de 2026
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Autor da foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil - arquivo

O Sistema Único de Saúde (SUS) atende mais de 76% da população brasileira, com um orçamento para este ano de 2026 de R$ 247,5 bilhões – um alto valor que pode cair, pelo menos uma boa parte, nas mãos de empresas privadas do setor caso seja concretizada a eleição ao cargo de presidente da República de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que anunciou em entrevista à TV Globo no dia 28 de agosto, que em seu governo o ministro da Saúde será Cláudio Lottenberg.

Médico oftalmologista, ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, Lottenberg foi secretário municipal de Saúde de São Paulo, em 2005, na gestão de José Serra, quando ajudou a implementar as Organizações Sociais de Saúde (OSS), nas unidades de saúde do município.

Em entrevistas e artigos ele tem defendido maior participação, além das OSS, do setor privado na prestação e na gestão de serviços do SUS, principalmente por meio de parcerias público-privadas (PPPs) e contratação de serviços da rede privada. O médico disse querer usar a estrutura privada existente para realizar exames e serviços que seriam pagos pelo SUS, especialmente nos períodos em que essa estrutura está “ociosa”.

Uma de suas propostas é que o SUS “remunere melhor essas empresas privadas de saúde”.  Em entrevista ao site JOTA, ele também defendeu mudar a forma como hospitais e clínicas são remunerados pelo SUS, passando de uma lógica centrada no procedimento para uma remuneração relacionada ao resultado obtido pelo paciente. A frase registrada pelo JOTA foi: “Não basta simplesmente pagar melhor um procedimento e, sim, remunerar melhor por aquilo que a gente vem entregando”.

Júlia Reis Nogueira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social, defende que o SUS seja mantido como um sistema público e gratuito, com atendimento igualitário para toda a população. Para ela, a ampliação da participação privada na saúde representa um risco à universalidade prevista na Constituição. “O que nós não podemos defender é que no Brasil, quando eu estou dizendo nós, que representamos trabalhadores e trabalhadoras, nós representantes da sociedade civil, a gente não vai defender a ampliação da privatização da saúde de jeito nenhum”.

Segundo Júlia, o Brasil tem profundas desigualdades sociais e, por isso, a saúde pública precisa garantir atendimento independentemente da condição financeira do paciente. “Nós defendemos que a saúde seja pública, seja de qualidade e que dê cobertura à totalidade da população brasileira.” Ela cita como referência a Inglaterra que mantém sistemas públicos de saúde e afirma que o modelo brasileiro deve buscar ampliar o acesso, e não transferir mais espaço para empresas privadas.

A dirigente também chama atenção para os impactos que uma maior participação de empresas privadas no SUS pode ter sobre os trabalhadores da saúde. Ela afirma que a pandemia mostrou a importância desses profissionais para o atendimento da população e expôs a precarização enfrentada pela categoria. “Os trabalhadores da saúde merecem ser valorizados, merecem ser respeitados”, afirma.

Para Júlia, fortalecer o SUS passa pela valorização dos profissionais e pela garantia de recursos para o sistema público. “O que nós queremos no Brasil é cada vez mais ampliar essa cobertura, de forma que o conjunto da sociedade tenha cobertura de saúde pública e de qualidade.”

A influência de Flávio Bolsonaro na saúde do Rio

Relatórios e notícias na imprensa apontaram que unidades hospitalares e postos estratégicos da rede federal de saúde no Rio de Janeiro sofriam forte influência política ligada ao candidato à presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a gestores por ele indicados a partir de 2019, ano em que o pai dele, Jair Bolsonaro, assumiu a presidência da República.

Houve suspeitas de que milicias atuavam para controlar o Hospital Federal de Bonsucesso (HFB). Na época, o então ministro da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno (morto por um infarto fulminante em 2020), e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (demitido por Jair Bolsonaro no início da pandemia, também em 2020), denunciaram publicamente que equipes técnicas do governo federal sofreram ameaças e intimidações de milicianos.

De acordo com reportagens publicadas à época, Flávio Bolsonaro trocou dirigentes e funcionários por pessoas próximas. Diretores que se opuseram às suas indicações foram afastados, enquanto coronéis estavam à frente da Superintendência da saúde.

Em 2021, o Tribunal de Contas da União (TCU), investigou os gastos de cerca de R$ 100 milhões sem licitação, ocorridos entre 2019 e 2021, também no HFB. O valor representava cerca de 70% dos gastos da unidade. A apuração do TCU resultou na exoneração do então diretor-geral Cláudio Pena, que comandava a unidade durante o período sob fiscalização, em 2022.

Flávio Bolsonaro também foi denunciado, em junho de 2021, na CPI da Covid pelo seu ex-aliado político, o ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, de ser “dono” dos hospitais federais do estado. Segundo Witzel, o senador tinha o controle sobre os seis hospitais administrados pelo Ministério da Saúde no estado. O candidato negou as acusações.

Nessa quinta-feira (1º), a Agência Pública publicou uma investigação que reuniu documentos do TCU e da Controladoria Geral da União (CGU), depoimentos de gestores e ex-gestores e outros documentos sobre a atuação política nos seis hospitais federais do Rio.

A reportagem encontrou, por exemplo, um diagnóstico do próprio Ministério da Saúde de 2023 segundo o qual 72% dos recursos dos seis hospitais — R$ 50,3 milhões por mês — eram consumidos em custeio, incluindo contratos de limpeza, vigilância e rouparia. No Bonsucesso, a proporção chegava a quase 80%.

Embora o TCU concluído de que o candidato tenha cometido crime, a reportagem afirma que Flávio Bolsonaro teria exercido influência política sobre a rede entre 2019 e 2022 e relaciona essa influência a nomeações e à gestão dos hospitais, com base nas fontes entrevistadas e documentos levantados pela Pública.

Pedido de investigação ao STF

No fim de agosto de 2026, o deputado Lindbergh Farias pediu ao STF que investigasse Flávio Bolsonaro por suspeitas relacionadas ao controle político dos hospitais federais. O pedido cita justamente auditorias do TCU e da CGU e a declaração de Witzel na CPI da Covid.

Segundo a Agência Pública, a notícia do fato foi encaminhada ao ministro Flávio Dino e pede que uma investigação já existente no Supremo seja ampliada para verificar se Flávio teve participação nas irregularidades encontradas nos hospitais.

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