Dívidas X Juros

Endividamento das famílias aumenta com juros praticados pelo BC independente

Desde que o Banco Central se tornou independente do governo federal em 2021 os juros subiram 13,75% em apenas 17 meses, endividando famílias, com altas taxas de cartão de crédito e outros financiamentos

Escrito por Rosely Rocha | CUT Nacional 30 de setembro de 2026
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Autor da foto: Roberto Parizotti (Sapão)

Em março de 2021, no governo de Jair Bolsonaro (PL), a taxa de juros do Banco Central (BC) estava em 2%. Até aquela data a instituição financeira era vinculada ao Ministério da Fazenda, permitindo que o governo federal pudesse ditar os rumos da taxa de juros. No entanto, após Bolsonaro criar uma Lei Complementar, dando autonomia ao BC e o desvinculando de qualquer ministério, a instituição passou a decidir sem interferência do governo federal a taxa de juros. A Selic subiu em apenas 17 meses 13,75% – a terceira maior taxa de juros do mundo. Em janeiro deste ano estava em seu patamar mais alto: 15%. Em números atuais, ao descontar a inflação prevista para os próximos 12 meses, o juro real foi calculado em 9,30% – o maior do mundo.

Com a transferência do índice da taxa Selic para os juros bancários, cartões de crédito, cheque especial e outras formas de financiamento, o resultado é o de que as famílias brasileiras continuam enfrentando aumento dos juros, da inadimplência e do endividamento.

Em agosto, segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas nesta terça-feira (29) pelo Banco Central (BC), a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas chegou a 61,7% ao ano, com alta de 1,4 ponto percentual (p.p.) em relação a julho; e de 2,9 p.p. na comparação com agosto do ano passado. A inadimplência chegou a 6% e o endividamento alcançou 49,9% da renda anual das famílias em julho.

O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas ficou em 28,7%, estável na comparação mensal, mas 1,4 p.p. acima do registrado um ano antes. Ao mesmo tempo, a inadimplência da carteira total de crédito do Sistema Financeiro Nacional alcançou 5% em agosto, com alta de 0,1 p.p. no mês e de 0,9 p.p. em 12 meses. Entre as modalidades que mais pressionaram o indicador estão o cartão de crédito rotativo e o cartão parcelado.

Para a diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, o custo elevado do crédito também contribui para o aumento do endividamento e da inadimplência. À medida que as pessoas deixam de pagar suas dívidas, os juros acumulados aumentam e pressionam ainda mais o orçamento familiar. “A pessoa tem poder de compra reduzido”, diz.

Ela explica que como grande parte da atividade econômica funciona por meio do crédito, juros elevados encarecem compras parceladas e comprometem uma parcela cada vez maior da renda das famílias. “Tudo o que parcelamos acaba tendo juros altos e vai drenando cada vez mais parte dos salários para o sistema financeiro”, afirma.

Selic cai, mas juros continuam prejudicam economia

No último dia 16 deste mês, o Conselho de Política Monetária (Copom), do BC decidiu pela diminuição de 0,25% da Selic, saindo de 14% para os atuais 13,75%, numa redução que vem sendo feita gradualmente pela quinta vez consecutiva.

Esses juros altos também atingem empresas, que enfrentam maior custo para investir, produzir e contratar, e o próprio governo, que paga juros sobre uma parcela expressiva da dívida pública.

Na avaliação de Adriana Marcolino, a condução da Selic está “descolada dos indicadores econômicos” e também do programa de governo eleito em 2022, que, segundo ela, tem como objetivos o crescimento econômico e a distribuição de renda. Para Marcolino, os juros elevados reduzem a atividade econômica e desestimulam investimentos, já que empresas tendem a adiar projetos diante do alto custo do financiamento.

Ela afirma ainda que a política de juros altos limita a capacidade de investimento do próprio Estado. Com menos espaço para ampliar investimentos e com o crédito caro para famílias e empresas, o consumo e a atividade econômica ficam comprimidos. Nesse cenário, avalia Adriana Marcolino, “a renda disponível das famílias perde força e a economia encontra mais dificuldades para sustentar um ciclo de crescimento”, conclui.

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*Com informações da Agência Brasil

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