Violência financeira ameaça renda de milhões de idosos no Brasil
Golpes digitais, empréstimos não autorizados e descontos indevidos colocam em risco aposentadorias e pensões e ampliam o desafio de proteger os 60+
Escrito por Redação CUT 29 de setembro de 2026
A aposentadoria deveria trazer segurança depois de uma vida inteira de trabalho. Para milhões de pessoas idosas, porém, o dinheiro que chega no fim do mês e deveria garantir comida, medicamentos, moradia e outras necessidades básicas está cada vez mais vulnerável a golpes, empréstimos não autorizados e descontos indevidos.
No primeiro semestre de 2024, o Disque 100 recebeu 24.631 denúncias de violência patrimonial e financeira contra pessoas idosas, dentro de mais de 90 mil denúncias de violência contra essa população. Por trás desse número estão aposentadorias comprometidas, benefícios desviados e patrimônios construídos ao longo de décadas de trabalho que acabam nas mãos de criminosos ou são consumidos por operações financeiras que a vítima não autorizou.
Um empréstimo que o idoso nunca contratou pode comprometer parte da aposentadoria durante meses. Uma fraude bancária pode levar justamente o dinheiro reservado para os medicamentos ou para o aluguel. Um desconto indevido pode obrigar a família a assumir uma despesa que deveria caber ao benefício.
Para quem vive com orçamento apertado, o golpe não termina quando o dinheiro desaparece da conta. Começa ali uma luta para recuperar os recursos e reorganizar a vida.
Golpes digitais ampliam a vulnerabilidade
São Paulo ajuda a mostrar como esse problema aparece no cotidiano. O estado registrou o maior número de denúncias de violência patrimonial e financeira contra idosos no país. Pesquisa da Fundação Seade mostra ainda que oito em cada dez paulistas com 60 anos ou mais já sofreram tentativas de golpes virtuais.
Entre os entrevistados, 12% relataram abertura fraudulenta de contas ou contratação de empréstimos que não autorizaram. Outros 68% consideraram praticamente impossível se proteger das fraudes on-line.
Embora os dados sejam de São Paulo, o fenômeno acompanha uma transformação que ocorre em todo o país. Bancos, serviços públicos, compras e pagamentos migraram cada vez mais para o ambiente digital. Para parte da população idosa, acompanhar essa mudança sem orientação ou mecanismos de proteção pode ser difícil.
Por isso, a prevenção não pode começar apenas depois que o dinheiro desaparece. Educação digital, segurança nas operações bancárias, fiscalização do crédito, canais acessíveis de denúncia e integração entre órgãos públicos e instituições financeiras são parte da resposta necessária.
Golpe Zero um projeto para defender os idosos
No programa apresentado para disputar o governo paulista, Fernando Haddad propõe o Golpe Zero, dentro do plano SP Protege. A iniciativa prevê uma estrutura de reação rápida para tentar bloquear recursos desviados assim que a fraude for comunicada e acompanhar o caminho do dinheiro.
O programa prevê articulação entre governo estadual, bancos, plataformas digitais, Banco Central, Ministério Público, Polícia Federal e Coaf. Também propõe atenção específica às pessoas idosas, com registro simplificado da ocorrência, apoio presencial e ações de prevenção.
A proposta parte de uma dificuldade enfrentada por muitas vítimas: depois de perceber o golpe, é preciso agir rapidamente, mas nem sempre o idoso sabe a quem recorrer ou consegue enfrentar sozinho os diferentes procedimentos para tentar recuperar o dinheiro.
Governo Lula prevê ampliar a rede de proteção
No âmbito federal, a proposta do governo Lula para o próximo mandato é ampliar e fortalecer políticas que já estão em funcionamento, combinando prevenção, educação digital, proteção dos benefícios e articulação entre órgãos públicos e instituições financeiras.
A estratégia parte de uma mudança importante de foco: não basta agir depois que o dinheiro foi perdido. É preciso orientar a população, dificultar a fraude, melhorar os mecanismos de segurança e facilitar tanto a denúncia quanto a recuperação dos recursos.
Entre as políticas já existentes estão iniciativas de educação e inclusão digital, o Disque 100, mecanismos de proteção dos benefícios previdenciários e ações de combate aos golpes digitais. A Mensagem ao Congresso Nacional de 2026 prevê a continuidade e a ampliação de políticas como o Viva Mais Cidadania, o Viva Mais Cidadania Digital e o Envelhecer nos Territórios, além do fortalecimento das políticas de proteção dos direitos da pessoa idosa.
Também fazem parte dessa rede ferramentas como o Celular Seguro, que permite bloquear aparelho, linha telefônica e aplicativos bancários em situações de roubo, furto ou perda, e o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix, utilizado para tentar recuperar valores em casos de fraude.
A proteção também passa pelo INSS, que mantém campanhas para alertar aposentados e pensionistas sobre mensagens e contatos falsos usados para obter senhas, documentos e dados bancários.
Proteger a renda também é cuidar
A violência financeira não é a única ameaça ao orçamento de quem envelhece. Para quem vive de aposentadoria ou pensão, os gastos com medicamentos, consultas e cuidados podem consumir uma parcela importante da renda.
A Política Nacional de Cuidados, criada pela Lei nº 15.069/2024, reconhece o cuidado como direito e estabelece responsabilidades compartilhadas entre União, estados e municípios. O Farmácia Popular também ajuda a reduzir despesas ao oferecer medicamentos e fraldas geriátricas dentro dos critérios do programa.
Em junho de 2026, o Ministério da Saúde lançou o PADI-Brasil, Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, com previsão de cerca de R$ 500 milhões em recursos federais para ampliar o atendimento multiprofissional em casa. São R$ 163,2 milhões previstos para 2026 e R$ 329,3 milhões para 2027.
Na prática, políticas como essas podem representar dinheiro que permanece no orçamento familiar. Quando o idoso consegue medicamentos, atendimento e cuidados pela rede pública, diminui a necessidade de retirar parte da aposentadoria para pagar esses serviços. Para as famílias, também pode significar menos gastos e menor sobrecarga de quem assume os cuidados.
Por isso, proteger a renda de quem envelhece não significa apenas combater golpes. Também significa garantir saúde, cuidado, assistência e condições para que a pessoa preserve sua autonomia.
O que está em jogo nas eleições de 2026
Em 4 de outubro, os eleitores escolherão presidente, governadores, senadores e deputados. São eles que terão a responsabilidade de criar leis, administrar recursos e definir políticas que podem afetar diretamente a vida de quem já passou dos 60 anos.
Por isso, proteger aposentadorias, evitar descontos indevidos, combater golpes digitais e garantir atendimento às vítimas também é uma questão que passa pelas escolhas feitas nas urnas. Nos próximos anos, políticas públicas, fiscalização e serviços de proteção precisarão acompanhar o crescimento da população idosa e os novos riscos trazidos pela digitalização.
Envelhecer com dignidade é poder usufruir com segurança do que foi construído ao longo de uma vida. Quando uma fraude ameaça esse patrimônio, prevenção, resposta rápida e uma rede pública capaz de amparar a vítima fazem toda a diferença.










