Chega de dívida

Bets levam todo mês bilhões das famílias e deixam a conta para toda a sociedade

Em 2025, as perdas líquidas dos apostadores foram estimadas em R$ 62,5 bilhões. O dinheiro que vai para as plataformas deixa de circular no comércio, gerar emprego e aumenta os gastos no SUS

Escrito por Redação CUT | texto: André Accarini | Editado por: Rosely Rocha 29 de setembro de 2026
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Autor da foto: Ahead/CUT

A promessa era ganhar dinheiro pelo celular, mas a conta real – o prejuízo – vai para a família e para toda a sociedade. Em 2025, brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões líquidos para as bets, segundo estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz). É um valor que saiu das mãos dos apostadores e foram paras as casas de apostas on-line. Em média, foram cerca de R$ 5,2 bilhões por mês que poderiam estar no orçamento das casas brasileiras.

Quando o salário acaba numa aposta, ele não compra arroz, feijão ou remédio. Não paga a conta de luz. Também deixa de circular na feira, no mercado e nas lojas do bairro. Quem aposta, geralmente perde em segundos um dinheiro que levou o mês inteiro para ganhar.

O prejuízo não vai apenas para quem aposta ou a sua família que, muitas vezes, acaba endividada, perde bens e fica com uma geladeira vazia. Toda a sociedade paga e, sem vender, o comércio e as empresas não geram empregos, diminuindo a velocidade da roda da economia.

Os números da dívida e das apostas

O endividamento geral das famílias brasileiras já vinha em linha de crescimento, mas encontrou nas apostas on-line um novo fator de impulsionamento e inadimplência estrutural. Ao longo dos anos, as bets afundaram milhões de famílias em dívidas que muitas vezes se tornaram tragédias com o adoecimento e até suicídios. Veja a evolução de acordo com dados do Banco Central e da Confederação Nacional do Comércio (CNC)

  • R$ 30 bilhões por mês: Foi o volume máximo estimado pelo Banco Central que os brasileiros chegaram a movimentar nas plataformas. A perda líquida média das famílias (o dinheiro que entrava e nunca mais voltava) girava em torno de R$ 4,7 bilhões mensais.
  • O rombo no comércio: O desvio de renda para as apostas e a consequente inadimplência retiraram R$ 143 bilhões do varejo entre 2023 e 2026. Esse valor equivale a somar todas as vendas de Natal dos anos de 2024 e 2025 no Brasil. É dinheiro que faz falta nas vendas e na capacidade das empresas de pagar fornecedores, manter postos de trabalho e contratar.

Quem ganha, quem perde

As plataformas ganham com o dinheiro apostado que não devolvem em prêmios. Quem aposta perde quando o resultado não vem — e pode comprometer recursos destinados às necessidades da casa. A família perde junto, mesmo quando só uma pessoa faz a aposta. E o comércio perde vendas quando o dinheiro deixa de ser gasto em produtos e serviços.

A dívida alimenta a próxima aposta

O prejuízo nem sempre encerra o jogo. Para quem perde o controle, ele vira motivo para continuar: a pessoa aposta de novo para tentar recuperar o salário, depois usa o cartão, pega empréstimo ou deixa uma conta vencer. A dívida cresce; a próxima aposta passa a parecer uma saída. É a bola de neve que pode levar o orçamento da família junto.

Algoritmo: o funcionamento dos aplicativos ajuda a manter esse ciclo. O jogo cabe no bolso, está disponível a qualquer hora e oferece resultados rápidos. Ganhos ocasionais, a expectativa do próximo prêmio e estímulos na tela incentivam a repetição. Isso não significa que toda pessoa que aposta desenvolverá dependência. Significa que, para quem entra no ciclo de perdas e tentativas de recuperação, cada clique pode aumentar o rombo.

Proibição provoca reação, mas abre uma saída para as famílias

A proibição das bets por medida provisória, anunciada pelo governo federal em 25 de setembro, tem provocado reações contrárias, no entanto, para as famílias que convivem diariamente com dívidas e o sofrimento causados pelas apostas, a proibição representa a esperança de que o salário deixe de desaparecer na tela do celular e o ciclo de perdas finalmente seja interrompido.

Saúde mental: além dos fatores econômicos, a saúde é uma questão primordial nesse tema. O transtorno do jogo pode vir acompanhado de ansiedade, depressão, alterações no sono, isolamento e conflitos dentro de casa e, segundo o Ministério da Saúde, os atendimentos relacionados ao vício do jogo e a problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025.

As empresas do setor recolheram cerca de R$ 9,95 bilhões em tributos federais no ano passado, mas para cada R$ 1 arrecadado pelo governo federal com as bets em 2025, os custos sociais associados às apostas chegaram a quase R$ 4. Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), citado pelo ministério, estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos, dos quais R$ 30,6 bilhões estão ligados à saúde.

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