Engenheiros explicam que o aumento da quantidade de etanol pode acelerar o desgaste de componentes em veículos mais antigos ou que não receberam calibração específica para trabalhar com essa concentração do biocombustível.
Entre os principais pontos de atenção está a compatibilidade dos materiais utilizados no sistema de alimentação dos motores.
Segundo Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), componentes metálicos e de vedação podem sofrer processos de corrosão e desgaste ao longo do tempo.
Entre as peças potencialmente afetadas estão:
- tanque de combustível;
- bomba de combustível;
- boia do tanque;
- linhas metálicas e plásticas;
- bicos injetores;
- pistões;
- câmara de combustão;
- sistemas de vedação.
O especialista explica que o etanol anidro, embora passe por processo de desidratação, mantém capacidade de absorver umidade do ambiente.
Quando essa água chega ao sistema de alimentação, aumenta a possibilidade de corrosão eletroquímica em componentes metálicos que não foram desenvolvidos para trabalhar nessas condições.
Segundo Gonçalves, as consequências podem incluir falhas no funcionamento do sistema de injeção, aumento do consumo de combustível, elevação das emissões e, em situações mais graves, danos à bomba de combustível e aos bicos injetores.
Ele ressalta, porém, que a intensidade desses efeitos varia conforme o projeto de cada motor.
Consumo também pode aumentar
Outro ponto destacado pelos especialistas é o possível aumento no consumo.
O etanol possui poder calorífico inferior ao da gasolina.
Enquanto um quilograma de gasolina pura fornece aproximadamente 10.400 quilocalorias, um quilograma de etanol hidratado entrega cerca de 6.300 quilocalorias.
Na prática, isso significa que uma quantidade maior de combustível precisa ser utilizada para gerar a mesma energia.
Segundo os engenheiros, tanto veículos flex quanto automóveis movidos exclusivamente a gasolina podem apresentar aumento de consumo.
Ainda assim, eles ressaltam que a diferença pode ser pequena para muitos motoristas, já que diversos fatores influenciam o rendimento diário dos veículos, como temperatura ambiente, trânsito, estilo de condução e manutenção preventiva.
Os testes oficiais de consumo são realizados em laboratório, utilizando dinamômetros e ciclos padronizados, o que nem sempre representa exatamente as condições encontradas nas ruas.
Anfavea pede mais testes
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirmou ser favorável ao fortalecimento dos biocombustíveis e reconheceu a importância do etanol para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
No entanto, a entidade defende que qualquer alteração na mistura obrigatória seja precedida por um cronograma amplo de ensaios técnicos.
Segundo o presidente da Anfavea, Igor Calvet, o principal objetivo é garantir segurança ao consumidor e assegurar que motores, sensores e componentes suportem a nova concentração de etanol prevista nas normas técnicas.
A posição foi construída em conjunto com o Sindipeças, entidade que representa os fabricantes de autopeças.
Para o setor automotivo, a ampliação dos testes oferece maior segurança tanto para as montadoras quanto para os consumidores.
Setor sucroenergético defende aumento
Já a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a mudança foi construída dentro do programa Combustível do Futuro, com participação de representantes do governo, centros de pesquisa e setores da indústria automotiva e energética.
Segundo a entidade, estudos conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia analisaram desempenho, consumo, dirigibilidade, funcionamento geral e partida a frio em veículos leves e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina.
De acordo com a Unica, os resultados demonstraram que a utilização do E32 é tecnicamente viável e não apresentou aumento de desgaste nem prejuízos ao funcionamento dos veículos analisados.
A associação também afirma que o setor possui capacidade para atender à demanda adicional provocada pela nova mistura.
A estimativa é de que sejam necessários aproximadamente 1 bilhão de litros extras de etanol anidro por ano. Em contrapartida, a produção nacional poderá crescer cerca de 4 bilhões de litros, impulsionada tanto pela expansão das usinas de cana-de-açúcar quanto pelo avanço da produção de etanol de milho.
Além disso, a entidade calcula que a nova composição poderá reduzir a importação anual de aproximadamente 800 milhões de litros de gasolina, fortalecendo a participação de combustíveis renováveis produzidos no Brasil.
Governo aposta em segurança energética
Ao ampliar a participação do etanol na gasolina, o governo busca reduzir a exposição do país às oscilações do mercado internacional de petróleo e ampliar o uso de fontes renováveis de energia.
Enquanto o CNPE sustenta que os testes realizados demonstram segurança para a adoção do E32, representantes da indústria automotiva defendem monitoramento permanente da medida e novos estudos para acompanhar seus efeitos sobre diferentes modelos de veículos.
Na prática, os impactos deverão variar conforme a idade do automóvel, a tecnologia embarcada e o nível de adaptação do motor ao maior teor de etanol. Para consumidores, fabricantes e oficinas especializadas, os próximos meses servirão para avaliar como a mudança se comportará no uso cotidiano da frota brasileira.










