Papa Leão XIV apresenta encíclica que pede “desarmamento” da Inteligência Artificial
Magnifica humanitas, primeira encíclica do pontífice, relaciona IA à nova questão social, defende dignidade do trabalho, combate ao poder dos monopólios digitais e ética global para proteger a humanidade
Escrito por Redação CUT | texto: André Accarini 28 de maio de 2026
A defesa da dignidade humana diante dos avanços tecnológicos, a proteção do trabalho e o alerta contra a concentração de poder nas mãos de grandes corporações marcaram o lançamento da primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, publicada nesta segunda-feira (25). Apresentado na Sala Nova do Sínodo, no Vaticano, o documento propõe uma reflexão ampla sobre os impactos da inteligência artificial (IA) e estabelece uma das posições mais abrangentes já formuladas pela Igreja Católica sobre o tema.
Assinada em 15 de maio — data que marcou os 135 anos da promulgação da Rerum Novarum, do Papa Leão XIII —, a encíclica estabelece um paralelo entre a revolução industrial do século XIX e a transformação digital contemporânea. Assim como a Igreja enfrentou, naquele período, os conflitos decorrentes das mudanças no mundo do trabalho, Leão XIV afirma que a humanidade atravessa hoje uma nova “questão social”.
“Hoje nos encontramos diante de uma transformação de magnitude semelhante, com consequências talvez, ainda maiores. A inteligência artificial já atinge muitas áreas da nossa vida e afeta decisões que mudam a convivência humana”, afirmou o pontífice durante a apresentação do documento.
Uma encíclica é um dos documentos mais importantes do magistério papal. Trata-se de uma carta solene por meio da qual o Papa orienta a Igreja e a sociedade sobre temas doutrinários, morais, sociais ou pastorais. Embora tradicionalmente dirigidas aos bispos, atualmente elas costumam ser voltadas também a todas as “pessoas de boa vontade”, extrapolando o universo católico e buscando influenciar debates globais.
Com o título Magnifica humanitas (“Magnífica humanidade”), a primeira encíclica de Leão XIV aborda “a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial” e sustenta que a tecnologia não deve ser vista como inimiga da humanidade, mas tampouco tratada como neutra.
“A tecnologia não é um mal em si mesma”, afirma o documento. Ao mesmo tempo, o Papa adverte que ela “assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”, motivo pelo qual precisa estar submetida a critérios éticos, sociais e democráticos.
Veja a íntegra da apresentação:
“Desarmar” a inteligência artificial
Um dos pontos centrais da fala de Leão XIV foi o apelo para o que chamou de “desarmamento” da inteligência artificial. Em uma das passagens mais contundentes do pronunciamento, o Papa comparou os desafios éticos da IA ao debate internacional sobre armas nucleares e alertou para o risco do uso militar da tecnologia, além da reprodução de desigualdades por sistemas algorítmicos.
“A inteligência artificial precisa ser desarmada… libertada de lógicas que a transformem em instrumento de dominação, exclusão ou morte. Assim como a energia nuclear, ela deve estar a serviço de todos e do bem comum”, afirmou.
Segundo o pontífice, a humanidade precisa impedir que o poder técnico se converta automaticamente em poder político, econômico ou militar. O documento critica diretamente monopólios digitais e a concentração tecnológica nas mãos de poucos grupos econômicos, alertando para o aprofundamento das desigualdades entre os incluídos e excluídos da revolução digital.
A encíclica propõe a criação de marcos jurídicos globais, mecanismos independentes de fiscalização e códigos éticos compartilhados internacionalmente. Leão XIV defende que decisões morais sobre IA não podem ser definidas apenas por elites econômicas ou tecnológicas.
“Não serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos”, registra o texto.
A defesa do humano diante das máquinas
Outro eixo estruturante da encíclica é a defesa do valor irreduzível da pessoa humana. Em tom crítico ao tecnicismo e às visões que medem indivíduos apenas pela produtividade, eficiência ou desempenho cognitivo, Leão XIV insiste que nenhuma máquina pode substituir aquilo que considera próprio da condição humana.
“Ninguém pode ser reduzido à produtividade, ao desempenho cognitivo ou a meros dados. A pessoa carrega em si uma liberdade, uma interioridade e uma vocação para amar e adorar, que nenhuma máquina pode substituir”, declarou.
A crítica do Papa também se dirige ao transumanismo e ao pós-humanismo — correntes que defendem o uso da tecnologia para superar limites biológicos humanos. Para Leão XIV, o limite não é uma falha a ser eliminada, mas parte constitutiva da experiência humana.
“A magnífica humanidade criada por Deus encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”, escreve o pontífice no início da encíclica.
Trabalho, sindicatos e justiça social
Ao tratar da chamada “quarta revolução industrial”, impulsionada pela inteligência artificial e pela digitalização, o Papa dedica espaço importante à proteção do trabalho e da dignidade laboral.
A encíclica reconhece que a tecnologia pode aliviar atividades repetitivas e pesadas, mas alerta que a busca por lucro e produtividade não pode justificar desemprego, precarização ou exclusão social. Leão XIV defende sistemas produtivos centrados na pessoa humana e afirma que o desenvolvimento econômico deve ser medido pela prosperidade compartilhada, redução das desigualdades e preservação ambiental — e não apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
Nesse contexto, o pontífice também aponta para a necessidade de renovação das organizações sindicais, vistas como instrumentos importantes de proteção do trabalho diante das transformações tecnológicas.
A justiça social aparece como um dos princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja na era digital. O Papa defende acesso equitativo às oportunidades tecnológicas, proteção dos grupos vulneráveis e combate à desinformação e ao discurso de ódio.
Comunicação, verdade e educação
A Magnifica humanitas dedica ainda um capítulo àquilo que chama de “ecologia da comunicação”. O Papa alerta para os impactos da lógica das plataformas digitais, da manipulação algorítmica e da captura da atenção humana.
Segundo Leão XIV, as plataformas passaram a explorar fragilidades emocionais e comportamentais dos usuários, criando o que chama de “arquitetura da visibilidade”, em que apenas determinados conteúdos ganham alcance e moldam percepções sociais.
O documento defende maior transparência sobre critérios de recomendação de conteúdos, proteção de dados pessoais e fortalecimento do jornalismo comprometido com verificação e argumentação.
Também há um apelo à educação crítica frente à IA, especialmente entre jovens.
Leão XIV adverte para o risco de que sistemas cada vez mais eficientes desestimulem o pensamento humano e reduzam a curiosidade intelectual.
É preciso, afirma, preservar nas novas gerações “o desejo de fazer perguntas” e fortalecer a escola como espaço onde se aprende a “buscar e amar a verdade”.
Guerra, paz e multilateralismo
No capítulo final, a encíclica volta-se às transformações da guerra na era digital e faz uma das críticas mais fortes ao uso militar da inteligência artificial.
Leão XIV afirma que a revolução tecnológica está alterando a “gramática dos conflitos”, tornando decisões sobre vida e morte cada vez mais impessoais.
“Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”, advertiu.
O Papa condena o crescimento da indústria bélica, critica a corrida armamentista nuclear e pede restrições éticas rigorosas ao uso de sistemas militares baseados em IA.
O texto também propõe a superação da teoria da “guerra justa”, defendendo maior centralidade do diálogo, da diplomacia e do multilateralismo internacional. Nesse sentido, Leão XIV defende reformas profundas na Organização das Nações Unidas (ONU), argumentando que as instituições globais precisam recuperar capacidade de promover o bem comum diante de um cenário internacional marcado pela fragmentação e pelo fortalecimento das disputas de poder.
“Civilização do amor”
Ao concluir a encíclica, Leão XIV convoca fiéis, governos, cientistas, empresas e a sociedade civil a participarem da construção de uma “civilização do amor”, expressão histórica da Doutrina Social da Igreja que, no documento, aparece como contraponto à lógica do domínio tecnológico e da força.
Inspirando-se na figura bíblica de Neemias, o Papa conclama todos a serem “artesãos da esperança” na reconstrução ética do mundo digital.
“Não temamos a inteligência artificial, mas tenhamos constantemente em jogo a questão do humano… [para] construir um futuro, não para alguns poucos privilegiados, mas para toda a família humana”, afirmou.
Sem oferecer respostas técnicas, Leão XIV sustenta que a Igreja busca contribuir com uma referência ética diante das mudanças aceleradas do século XXI.
“Não possuímos respostas técnicas… mas trazemos uma sabedoria sobre o ser humano de que o nosso tempo atual precisa desesperadamente”, concluiu.










