Em seminário histórico, CUT lança campanha permanente contra feminicídio
Encontro em São Paulo marcou a adesão da CUT ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio e reforçou compromisso permanente da Central com prevenção, acolhimento e combate à violência contra mulheres
Escrito por : André Accarini | CUT Brasil 13 de maio de 2026
A violência contra a mulher não pode ser tratada como tragédia privada, fatalidade ou estatística. Ela é estrutural, política, atravessa o mundo do trabalho e exige resposta organizada do Estado e da sociedade. Com esse entendimento, a CUT lançou nesta quarta-feira (13) sua Campanha Permanente de Combate ao Feminicídio – “Pela vida das mulheres, a luta é de todos”, em um seminário histórico realizado na sede nacional da Central, em São Paulo, que também marcou a adesão formal da entidade ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, do governo federal.
Com presença de mulheres e homens do movimento sindical de vários ramos, o seminário consolidou o compromisso político da maior central sindical da América Latina de transformar o combate à violência contra mulheres em ação permanente dos sindicatos, das campanhas salariais, dos locais de trabalho e da organização da classe trabalhadora. A proposta é fazer com que a luta contra o feminicídio deixe de ser um tema episódico e passe a integrar o cotidiano sindical por meio de formação, acolhimento, negociação coletiva e mobilização social.
Ao abrir o encontro, a secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino, ressaltou que o feminicídio é resultado de uma estrutura de violência sustentada pelo machismo, pela desigualdade e pela omissão social.
“O feminicídio é a expressão extrema de uma estrutura histórica de desigualdade sustentada pelo machismo, pela omissão do Estado, pela naturalização da violência contra as mulheres no cotidiano”, afirmou. Segundo ela, a violência tem rosto social definido no Brasil, atingindo de maneira ainda mais brutal mulheres negras, periféricas, indígenas, trabalhadoras e pobres.
Amanda destacou ainda que a adesão da CUT ao pacto nacional não pode ser encarada como um gesto simbólico.
“Mais do que aderir formalmente ao Pacto Nacional, a CUT assume essa responsabilidade publicamente de fortalecer essas ações dentro dos sindicatos, nos territórios onde a classe trabalhadora vive e resiste” – Amanda Corcino
Ela lembrou que o feminicídio é o ponto extremo de uma cadeia de agressões.
“O feminicídio não começa na morte. Ele é o topo de uma pirâmide de violência que começa no assédio, na humilhação, no controle psicológico, na violência moral, patrimonial e física”, ressaltou.
Ex-dirigente da CUT e militante do movimento negro Rosana Fernandes reforçou a necessidade de políticas públicas voltadas às mulheres negras, destacando que elas são as principais vítimas da violência e das desigualdades sociais.
“As mulheres negras são as que mais sofrem violência. Nesse 13 de Maio de abolição inacabada, a gente continua lutando por igualdade e por direitos”, afirmou.
Estado, políticas públicas e responsabilidade coletiva
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, participou da mesa de abertura, reforçando a articulação entre governo federal e movimento sindical no enfrentamento ao feminicídio. O pacto ao qual a CUT aderiu foi lançado pelo presidente Lula e reúne ações articuladas entre os poderes públicos para prevenção, proteção e enfrentamento à violência de gênero.
A ministra defendeu que o combate ao feminicídio precisa ocorrer antes que a violência chegue ao seu estágio mais extremo. Ao tratar do ciclo de abusos, afirmou que “o feminicídio é o fim da linha” e destacou a importância da denúncia e do fortalecimento das políticas públicas de prevenção. A ministra também apontou que a mudança cultural é o desafio mais difícil do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, ao lado da ampliação da rede de proteção e da responsabilização dos agressores.
Outro destaque de sua fala foi a cobrança por maior envolvimento dos homens no enfrentamento à violência de gênero. Márcia Lopes afirmou que o problema não pode ser tratado apenas pelas mulheres, já que “são os homens que matam”, e defendeu diálogo direto com o público masculino. A ministra também alertou para o avanço da violência digital e de grupos misóginos, como a “machosfera” e movimentos “redpill”, além de destacar ações educativas permanentes, como a inclusão do debate sobre direitos das mulheres e violência de gênero no currículo escolar por meio do programa Maria da Penha vai à escola.
Representando o Fórum das Mulheres das Centrais Sindicais, Maria Auxiliadora, da Força Sindical, destacou o papel histórico dos movimentos feministas, populares e sindicais na transformação da violência doméstica em problema público e político.
“Fomos nós, mulheres organizadas nos movimentos sociais, feministas, populares, sindicais e negros, que rompemos a naturalização da violência e pressionamos o Estado brasileiro a reconhecer a violência de gênero como um problema público e político”, afirmou.
Segundo ela, não há enfrentamento real à violência sem autonomia econômica, democracia e combate às desigualdades.
“Não existe enfrentamento real à violência contra as mulheres sem combater a desigualdade que torna tantas de nós vulneráveis ao medo, à dependência econômica e ao abandono”, disse.
A vice-presidenta do Instituto Maria da Penha, Regina Célia, alertou que os sindicatos precisam assumir papel ativo na prevenção.
“A prevenção do feminicídio exige que os sindicatos aprendam a identificar sinais, acolher, acionar a rede e transformar o trabalho em espaço de proteção e não de omissão”, afirmou.
Ela também defendeu coerência dentro das próprias entidades.
“Os espaços sindicais não estão imunes ao machismo, ao racismo, ao assédio e à violência política de gênero”, pontuou.
Experiências mostram caminhos de acolhimento
Na segunda mesa do seminário, dirigentes sindicais e militantes apresentaram experiências concretas de enfrentamento à violência de gênero e defenderam o papel dos sindicatos como espaços de proteção às mulheres e reforçaram a necessidade de um olhar antirracista no combate ao feminicídio.
A secretária da Mulher Trabalhadora da CUT São Paulo, Marcia Viana, destacou que os sindicatos costumam ser o primeiro local procurado por mulheres em situação de violência e, por isso, têm papel estratégico na prevenção.
“As trabalhadoras, os trabalhadores no primeiro momento aonde correm são pros sindicatos”, afirmou. Segundo ela, a atuação sindical precisa ir além das pautas salariais e atuar “pela vida e pela dignidade das mulheres e meninas”.
Já a secretária de Combate ao Racismo da CUT São Paulo, Rosana Silva, ressaltou que a violência atinge de forma mais intensa as mulheres negras e relacionou o debate ao 13 de Maio, classificando a data como símbolo de uma “abolição inacabada”.
“64% das mulheres que são assassinadas do feminicídio são mulheres negras”, afirmou. Para ela, o enfrentamento à violência exige educação de gênero e antirracista: “Se não tiver uma educação de gênero, uma educação antirracista, a gente não muda esse país”.
A secretária de Mulheres da Contraf-CUT, Fernanda Lopes, apresentou iniciativas do ramo bancário voltadas ao acolhimento e apoio jurídico de mulheres vítimas de violência, mostrando como cláusulas negociadas em acordos coletivos podem criar mecanismos efetivos de proteção. O projeto “Basta! Não irão nos calar” inclui atendimento qualificado, formação de dirigentes e atuação para evitar a revitimização das mulheres.
A presidenta da Casa Margarida Barreto, Lu Varjão, destacou a importância das redes de acolhimento construídas em parceria com sindicatos, especialmente onde o Estado não alcança plenamente as trabalhadoras.
Já a secretária nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais, afirmou que o lançamento da campanha permanente e a adesão ao pacto representam uma decisão política da CUT.
“Representa mais do que um compromisso institucional, representa a afirmação política de que a vida das mulheres precisa ser tratada com prioridade absoluta”, disse.
Para ela, o feminicídio não pode ser combatido sem enfrentar racismo, desigualdade e exclusão social.
“Não há combate real ao feminicídio sem enfrentamento ao racismo, à desigualdade social e às múltiplas formas de agressão que sustentam essa violência”, afirmou.
O lançamento da campanha
A mesa de lançamento da campanha permanente da CUT “Pela vida das mulheres, a luta é de todos” encerrou o seminário apresentando estratégias da central para enfrentar a violência contra as mulheres, com foco em formação sindical, acolhimento e inserção do tema nas negociações coletivas.
A atividade reuniu a secretária de Formação da CUT Rosane Bertotti, a secretária adjunta de Mulheres da CUT Brasil, Mara Feltes, a secretária de Combate ao Racismo Júlia Nogueira, além de Amanda Corcino, secretária da Mulher Trabalhadora; e Juvandia Moreira, vice-presidenta da CUT Brasil.
Ao apresentar a campanha, Amanda Corcino afirmou que a iniciativa nasce diante do aumento da violência contra as mulheres e do avanço de discursos misóginos, com o objetivo de criar uma rede permanente de proteção no mundo do trabalho e no movimento sindical.
“O mundo do trabalho é um espaço estratégico para essa prevenção”, disse a dirigente, ao defender a preparação de lideranças sindicais para identificar sinais de violência e acolher vítimas de forma segura. Segundo ela, a campanha pretende mobilizar trabalhadores e trabalhadoras e incluir o combate à violência nas negociações coletivas.
O caráter formativo da campanha foi um dos principais pontos da mesa, Rosane Bertotti, explicou que a central desenvolverá ciclos de diálogos, seminários e ações locais para preparar dirigentes e militantes.
“A política de formação nunca é uma política em si mesma. Ela está sempre ligada a uma ação e a uma estratégia”, afirmou Rosane, destacando que a CUT já produziu cartilhas e metodologias para apoiar os sindicatos no enfrentamento à violência de gênero.
Mara Feltes destacou a importância do protocolo da CUT de prevenção e enfrentamento à discriminação, assédio e violência de gênero, aprovado pela central. “Nós queremos que ele valha, que ele se faça cumprir”, afirmou.
Júlia Nogueira defendeu que a campanha incorpore o debate racial, lembrando que mulheres negras estão entre as principais vítimas da violência. Já Juvandia Moreira apresentou propostas de cláusulas para convenções e acordos coletivos voltadas à proteção das trabalhadoras, incluindo acolhimento e estabilidade em casos de violência doméstica.
Ao final, Amanda convocou sindicatos e categorias a colocarem a campanha em prática. “Vamos botar essa campanha na rua”, afirmou.
Com o lançamento da campanha e a adesão ao Pacto Nacional, a CUT põe em prática a estratégia de transformar sindicatos em espaços de prevenção, proteção e mobilização permanente.
A campanha permanente da CUT prevê ações planejadas ao longo de 2026, incluindo a implementação do Protocolo da CUT de combate ao assédio e violências de gênero, a construção de pautas para negociação coletiva em campanhas salariais e iniciativas de formação, comunicação e mobilização nos sindicatos e entidades filiadas.
“Pela vida das mulheres, a luta é de todos”, lema da campanha é o chamado político para todos e todas enfrentarem o feminicídio, o que exige organização coletiva, presença do Estado e compromisso cotidiano do movimento sindical.










